Exercícios orientais

 

Roberto Gomes

 

A sala de espera é uma espécie de varanda, talvez antiga garagem. Sento no banco de madeira, aprumo as costas contra a parede e tento relaxar. Preciso me preparar para a sessão de acupuntura. Fecho os olhos. Escuto um bem-te-vi, um carro avançando pela rua de terra em frente, um latido de cachorro. Abro os olhos, pressentindo que sou observado.

Lá está a cabecinha dele. Tem cinco anos, o cabelo cortado rente, e me espia de longe. Sorrio e faço caretas, mas ele nem se toca – já sabe controlar suas reações como bom oriental. Fecho os olhos e procuro me concentrar, ou melhor, deixar a cabeça vazia, ouvir o bem-te-vi, não pensar em nada. Mas escuto um barulho no chão de pedra. Alguém caminha por ali. Abro os olhos.

Onde se meteu o menino? Ele se chama João, tal como meu pai e meu filho. Só isso já basta para que o ache simpático. Mas trata-se de um João chinês. Um João mesmo assim, penso eu, membro de uma tribo especial. Especial e, pelo visto, invisível. Escuto o barulho de seus passos, mas não o vejo. Investigo melhor e lá estão seus pés, atrás da camionete estacionada à esquerda. Está tentando abrir a porta. Dia destes, entrou no meu carro e foi apertando todos os botões que via pela frente, dizendo:

- Botão, botão, botão.

Fecho os olhos. O bem-te-vi achou coisa melhor para fazer. O cachorro está calado. Só os pés do João não sossegam, remexendo o chão de pedras miúdas. Tento pensar em outra coisa e levo um susto quando ouço seu chinelo chinês estalando nos ladrilhos da varanda. Abro os olhos e lá vem ele, que passa por mim como se eu não existisse. Vai até uma bicicleta – destas com rodinhas na parte traseira – e abre uma sacola com estampas do Snoopy e do Woodstock. Nada mais adequado, penso: um João chinês curtidor de personagens do Schulz, aqui num bairro da periferia de Curitiba enquanto me preparo para enfrentar agulhas de acupuntura. Fecho os olhos.

Mas por pouco tempo. João resolve andar de bicicleta pela varanda. As rodas, duras, resvalam nas junções dos ladrilhos e fazem um barulho infernal. Sinto falta do bem-te-vi. João, muito sério, dá uma volta, outra e, na terceira, avança na minha direção, tirando um fino do meu sapato. Ri do meu susto, o safado.

Continua dando voltas com a bicicleta, sempre aumentando a velocidade, e temo que vá se espatifar contra um vaso. Nada disso. Solta um grito e faz com que a bicicleta suba os dois degraus que levam ao jardim. A bicicleta fica inclinada e ele se diverte com o perigo. Olha para mim, pedindo aplauso.

- Legal, digo eu.

- Regal, responde ele, acho que em chinês.

- Mas perigoso, muito – digo eu, imaginando falar chinês também.

Ele aponta o segundo degrau e diz, lembrando alguma recomendação que lhe deram:

- Não pode aqui – e, apontando para o primeiro degrau:  Pode aqui sim.

- Sim, pode aí – respondo eu, sempre em chinês.

Tento fechar os olhos. Afinal, preciso me preparar para as agulhadas e uma dor fina me fere a nuca. Fígado com energia forte, segundo o pai do João. As agulhas acabarão com esta dor, penso, desejando silêncio. Mas a bicicleta do João volta a disparar pela varanda e passa ventando por mim. Desta vez, mantenho os olhos fechados para não levar um susto maior. João dá nova gargalhada.

Ele pára a meu lado, retira uma pequena vasilha da sacola do Snoopy. Começa a comer alguma coisa. Coloca a vasilha debaixo do meu nariz para que eu sinta o cheiro. Digo, em chinês, bom, muito, mas não sinto cheiro algum. Talvez farelo. João come mais um bocado, guarda a vasilha e retira do bolso uma moeda. Chinesa.

Ele fica de pé no banco, esconde a moeda entre as mãos, faz uns gestos de mágico e, quando ergue as mãos, me deixa ver as palmas vazias. A moeda está nas costas de uma das mãos, é claro, mas faço a maior cara de espanto de que sou capaz. João dá gargalhadas. Eu também rio e esqueço a dor na nuca, as agulhas, o bem-te-vi. Tiro uma moeda do bolso e faço-a sumir no ar e reaparecer na orelha do João. Ele se encanta e repete o truque na minha orelha.

Mas o pai do João, homem sério, chega na porta, e lá vou eu pro sacrifício. João, inconformado, vem de arrasto, dependurado no meu casaco. Quer repetir a mágica, mas acaba desistindo diante de uma olhadela – oriental ou não, são sempre iguais – que o pai lhe dirige.

Vamos lá, penso eu. Quem manda ficar adulto, sentir dores de cabeça e de alma, acaba precisando mesmo de umas agulhadas.

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