Escolha seu astro
preferido
Roberto Gomes
Hoje existe no local o
esqueleto cinzento de um prédio inacabado, cercado por tapumes e ameaçado pelo
mato. Está ali há anos, feio e sombrio, sem que seja concluído ou posto abaixo.
Quando eu era adolescente,
numa Blumenau que não existe mais, ali ficava o Clube América, cujos bailes freqüentávamos
em busca de namoradas – muitas delas imaginárias e inatingíveis. Íamos
conversar com amigos, beber cuba-libre ou uma mistura
sinistra de conhaque com guaraná. E fumar os primeiros cigarros públicos. Os cotovelos no balcão, fazíamos ares cafajestes, olhares conquistadores,
poses de James Dean de província.
Mas a antiga construção de
madeira à beira do Rio Itajaí não me vem à memória por conta de amores perdidos
ou gafes cometidas. Lembro daquele lugar como se fosse um cenário de filme B: as
janelas generosas e o rio além dos vidros, o assoalho de tábuas largas, homens
que usam chapéus, gravatas escuras e ternos de linho.
Tudo tem um ar muito antigo.
No dia marcado em minha
memória, fazia-se a contagem dos votos de uma eleição. As mesas, colocadas lado
a lado, formavam uma imensa plataforma. Os escrutinadores estavam sentados nas
mesmas cadeiras que disputávamos nos dias de baile. Diante deles, as urnas,
pequenos caixotes de madeira escura. A atividade era muita. Abertas as urnas,
os homens contavam os votos e faziam anotações enquanto alguém anunciava as
contagens em voz alta.
Nós estamos, eu e um
amigo, numa área junto à porta principal, um cercado delimitado por grossas
cordas destinado ao “público”, que somos nós. Acompanhamos a totalização dos
votos que, de tempos em tempos, alguém escreve a giz num quadro negro
dependurado na parede dos fundos.
Já nem lembro de que
eleição de tratava. Talvez elegesse prefeito ou vereadores ou presidente da
república. Sei que era uma eleição muito disputada e que os ânimos estavam
exaltados.
Ao longo das mesas circulava
um homem alto, magro, vestido com um rigor muito severo. O juiz de direito da
cidade. Carrancudo, curvado pela própria austeridade, inspeciona o trabalho dos
apuradores, resolve dúvidas, toma decisões. Vai de mesa em mesa, enquanto os
trabalhos seguem.
A nosso lado, no cercado,
há muita gente. Fazem contas, anotam os votos, calculam percentuais, discutem
em voz baixa.
O clima de tensão cresce
e, num certo momento, a interferência dos fiscais dos partidos torna-se
turbulenta junto aos apuradores, as vozes se erguem, os homens discutem exaltados,
um deles se coloca de pé e improvisa um discurso.
É quando o homem alto e
magro se aproxima e pede silêncio. Eu o tinha visto algumas vezes, na rua, onde
era apontado como uma sumidade jurídica e um tipo justo e reto, como se dizia.
Uma celebridade municipal. Chamava-se, se não me falha a memória, Marcílio Medeiros.
A discussão aquietou, mas
os ânimos continuaram exaltados. Minutos depois, desanda nova gritaria. Dois
homens se erguem, um deles ameaça um soco, o outro arma
os braços numa defesa de boxeador.
É quando o juiz retorna e se
coloca entre os dois valentões, dando um berro que faz estremecer o madeirame combalido do velho América.
- Respeito! Os senhores se
comportem!
A meus olhos de apenas dezesseis
anos, ele cresceu alguns centímetros e, embora com os braços largados junto ao
corpo, parecia mais ameaçador do que os dois que antes erguiam os punhos.
- Mais uma altercação
destas e serão presos! gritou, encerrando o caso.
Acho que foi por isto que
esqueci de que eleição se tratava. Afinal, as eleições se sucedem e passam, os
eleitos também desaparecem com o tempo. Lembro apenas do juiz, de seus olhos furiosos,
calando valentões e cabos eleitorais picaretas, e, na minha cabeça para sempre
fantasista, me ocorreu que ali estava um belo papel para Henry Fonda: um personagem
severo que acredita em valores mais importantes do que admitem os oportunistas
de sempre.
Virou meu herói e fez com
que o clube América – hoje substituído por lamentáveis ruínas cinzentas – me
ficasse na memória não apenas por nossas desastrosas tentativas de imitar James
Dean.
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