E se a falsa cultura for a verdadeira?

Roberto Gomes
Dona Marionitta
de Andréas Gouvêa, conhecida como Ninita, dedicou
dois dias a um levantamento de suas convicções culturais mais profundas. Tudo anotado
numa folha de caderno, chamou um jornalista conhecido e lascou uma entrevista
recheada de opiniões definitivas.
Por exemplo: acha Jô
Soares o homem mais inteligente do Brasil. Um grande entrevistador, uma
demonstração permanente de erudição, mal sobrando tempo para o entrevistado
falar. Aliás, nem precisaria do entrevistado. Não li os livros dele, mas sei
que é um grande escritor. Já deveria ter sido eleito para a Academia Brasileira
de Letras, exalta-se. Injustiça. Consola-se pensando que pelo menos o Paulo
Coelho, outro gênio, está lá.
No quadro dos humoristas,
dona Ninita gosta muito de Tom Cavalcante,
engraçadíssimo. Como faz caretas! diz ela, chorando de
tanto rir. Eles mostram que o Brasil é o país mais divertido do mundo, além de
ser abençoado por Deus e bonito por natureza, como dizia o samba do Caymmi...
ou seria do Vinícius?... Ou do...? Neste ponto, dona Ninita
ficou ligeiramente confusa e se desculpou dizendo que desde que concluíra a
faculdade não fazia tamanho esforço intelectual para falar sobre a cultura
brasileira. Perdão.
E arrematou:
- Vinícius ou Caymmi,
pouco importa, o Brasil é mesmo o melhor país do mundo. Aqueles europeus,
aquela cultura antiga, velha, cansada, aquela gente fria e distante. No Brasil,
diz ela, é que a gente sente o verdadeiro contato humano.
Já na área social, dona Ninita e seu marido, J.P.G de Andréas Gouvêa, que aplica no
mercado financeiro, concordam que novas oportunidades se abrem para os
brasileiros. Mesmo o Lula, em quem ela não depositava
a menor confiança, acabou ajudando os negócios. Também, assessorado pelo
Meirelles, diz Ninita, até um operário pode dirigir o
Brasil. É o país do jeitinho, arremata.
Admite que a vida está
difícil, o próprio J.P.G. precisou se desfazer de uma de suas lanchas. Que
fazer? Faz parte. E revela sua polêmica opinião sobre o desemprego. Há tanta
gente precisando de um jardineiro, uma empregada doméstica... como é que não
arrumam emprego? Acho que é falta de empenho. E dispara um argumento
definitivo:
- Eu, caso precisasse de
emprego, arrumaria num minuto. Era só dar uns dois ou três
telefonemas para estes meus amigos da política.
A saída, segundo ela, são
as exportações. Por que não exportam ao invés de pedir esmolas ou assaltar?
Exportar é o que importa. E completa, de forma didática: nós exportamos e os outros
importam. Uma coisa conduz e completa a outra. Simples.
Mas é na área das artes e
da cultura que o casal se delicia. Gostam de amenidades e J.P.G. costuma
lembrar a frase de Coelho Neto (lida numa revista médica, num consultório): “A
literatura é o sorriso da sociedade”. Que lindo! Cultura é uma delícia,
concordam os dois. Leram diversos livros de auto-ajuda e ficaram surpresos com
o nível dos escritores brasileiros. Pensavam que era coisa só de europeus, como
aquele Hemingway – que, aliás, morou na República Dominicana com Gaughin, não foi? Ou foi o Van Gogh? Foi em Cuba? Bom, depois a gente vê no Google. Mas só
no Brasil um escritor como Sarney poderia ser presidente. Um presidente
escritor, que beleza!
O casal tem outro ponto em
comum com Lula: Zéca Pagodinho é um monstro! exalta-se
ela. Um Mozart dos subúrbios, já que Mozart, sendo alemão, também gostava de
cerveja. Era austríaco? Ah, é a mesma coisa.
Quanto aos clássicos da
literatura, o casal elege José de Alencar como símbolo. Não leram nenhum livro
dele, mas viram na televisão. Só ele poderia escrever A escrava Isaura,
dizem, em uníssono. Arquiteto, é claro, é Niemeyer, autor do plano piloto de
Brasília, um primor. Cantoras, a Ivete Sangalo – seu J.P.G.
revira os olhinhos – e Simone. Já a música erudita é uma terapia – eu durmo
feito anjo, diz dona Ninita.
Neste ponto, a entrevista
foi interrompida abrupamente, pois ela e o marido estavam
ansiosos para ver na televisão a novela das oito.
- Cultura de massa, disse
ela, empurrando o repórter porta afora. Todo mundo vê, todo mundo participa. É
o Brasil!
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