E agora?

Roberto Gomes

 

Isso de escrever é simples e fácil, desde que você não consulte professores de gramática. Como dizia – ou dizem que dizia, o que dá no mesmo – o escritor norte-americano Sinclair Lewis, escrever é a arte de se estabelecer uma relação entre três fatores: caneta, cadeira, bunda. Feitas as atualizações – caneta por notebook, por exemplo; a bunda continua a mesma – trata-se de sentar diante de uma folha ou tela em branco, armar-se de fôlego e começar a escrever.

Claro, aí vem um pequeno detalhe, ressaltado por Millôr Fernandes num texto de uns duzentos e trinta anos atrás – o Millôr, sendo um clássico, parecer ter escrito alguns séculos. Diz ele que basta você pegar papel, um lápis, sentar-se numa cadeira e esperar surgirem as idéias. Fácil, portanto. Quer dizer, o difícil é virem as idéias.

Neste caso, você pára, relaxa, coloca um CD do Charles Mingus para rodar e espera virem as idéias. O resto é fácil. Ajeita o notebook, tenta assumir aquela postura que, dizem, evita dor nas costas e lesões por esforço repetitivo e vai em frente.

Falar nisso, lembro que estas lesões são chamadas de LER, aliás, um belo nome. Pois saíram de moda. Há uns anos não era possível abrir estas revistas que vivem explorando a hipocondria alheia, sem dar com uma reportagem – “científica” – sobre elas. Vejam só como, súbito, se descobre um assunto – não sei se se trata de uma “idéia”. As ocupações humanas, mesmo as que pareciam urgentes, são instáveis e somem das pautas da mídia e da cabeça das pessoas. Agora mesmo o Bill Gates anunciou que o Windows Vista, que mal chegou, já está indo embora.

Houve um tempo – “Meninos, eu vi!”, diria aquele índio do Y-Juca-Pirama, do Gonçalves Dias – em que o grande lance para apavorar hipocondríacos era falar mal de tomate. Tomate era o demo. Uma fruta – seria fruta? – que já estaria condenada ao desaparecimento não fossem as toneladas de agrotóxicos usadas pelos japoneses. Não sei porque culpavam logo os japoneses, a meu ver tão afáveis, mas era assim.

Pois, mudam os ventos e lá está o tomate recuperado. Agora previne, entre outras coisas, o câncer de próstata. Ressurge no mundo uma febre em comer tomate.

Eis uma idéia, penso eu. Agora, é só escrever. Por exemplo: no momento, os brasileiros são soterrados por dois fatos jornalísticos – o que seja um “fato jornalístico” um dia iremos descobrir – que são: a morte da menina Isabella e o dossiê/banco-de-dados da Dona Dilma. Algo mais encontrável nas folhas do que os tomates de antigamente.

Eu, na falta de idéias que me assalta nesta manhã lerda em que escrevo, noto a fúria – sempre ela – com que as pessoas investem contra o pai e a madrasta da menina morta. Claro, é possível que sejam culpados, mas não há nada provado, alguns dados dizem o contrário. E é bom não esquecer injustiças anteriores, trombeteadas pela mídia, como a Escola Base. Este crime terrível, no entanto, parece despertar um profundo espírito de justiça e a população foi à porta das delegacias para pedir justiça, todos convencidos de que é óbvio quem foi o criminoso.

No caso do dossiê da Dona Dilma não parece haver a mesma fúria. Todos sabem que os dados estavam nos computadores da Casa Civil, todos sabem que o tal dossiê só poderia ser feito lá, todos sabem que a pessoa que mandou executar esta ação tem nome e sobrenome, como sabem a quem interessava usar estes dados para pressionar opositores. E daí? Nada. Alguns dão uma risota cínica, dizem que políticos são assim mesmo e vão tratar de coisa mais urgente, enquanto os índices de popularidade sobem.

Fico então sem saber o que pensar de tamanha sede de justiça no caso da morte da menina em contraste com a questão dos dossiês. Aliás, à maneira dos tomates, vários outros assuntos já sumiram de pauta: o mensalão, o mensalinho, o FHC chamando os aposentados de vagabundos, o Lula dizendo que não sabia de nada, a irresponsabilidade quanto à dengue, o estado caótico dos hospitais públicos, a lástima em que se encontra a educação – pública ou privada – no país, o abandono de estradas e ferrovias, a sofisticada polêmica para se saber se as viagens de Lula para trombetear o PAC são ou não eleitoreiras.

Quer dizer: resta-nos a pobre e indefesa menina chamada Isabella, vítima de um crime bestial aos cinco anos, com seu sorriso desarmado e puro a sangrar nas páginas dos jornais.

Eis aí uma “idéia”. Enfim, sempre houve algum tomate à disposição da fúria humana.

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