Doidos

 

 

Roberto Gomes

 

Dizer que há alguns anos as cidades eram mais amigáveis pode parecer nostalgia boba. E deve ser. Mas a verdade é que as cidades eram mais amigáveis.

Vejamos o caso dos doidos.

Toda cidade tinha seu grupo – maior ou menor – de doidos. Ora, dirá um leitor mais impaciente, hoje as cidades estão cheias de doidos! Onde este cronista (doido?) está querendo chegar?!

É também verdade que o número de doidos aumentou, mas estou falando de outra coisa, caro leitor.

Lembro que as cidades tinham seus doidos de estimação, digamos assim. Eram doidos que viviam pelas ruas, dormiam onde fosse possível, viviam de favores, quase sempre morriam ainda jovens, não eram dados a banhos e se vestiam com trapos velhos que organizavam, em alguns casos, com muito engenho.

Eram doidos que participavam da vida urbana como qualquer destas criaturas que costumamos chamar de normais.

Vejamos alguns casos em três cidades diferentes: Blumenau, Florianópolis e Curitiba.

Em Blumenau havia o Araçá. Era um negro alto, bonito, de olhos claros, que ainda lembrava o porte atlético que tivera em outras épocas. Falava um português límpido e refinado, de frases em ordem direta, não raro salpicado com palavras eruditas, que nos levavam a crer verdadeira a história que corria a seu respeito. Fora um homem estudioso, talvez professor ou juiz, e chegara a ser um dos sujeitos mais ricos de... bom, aí começavam as divergências. Seria de Itajaí, segundo alguns; de Lages, segundo outros. Havia mesmo a teoria de Maria Palmeira – uma índia baixinha e enfezada, torcedora do time do Palmeiras local e que escapou de ser uma doida da cidade pelo fato de ter uma carroça com que ganhava a vida. Maria garantia que conhecera Araçá quando seu nome era outro – qual, nunca disse, fazia segredo – e ele era o negro mais ilustre de Porto Alegre. Bom, nunca se confirmou nenhuma das afirmações de Maria Palmeira.

O fato é que Araçá teria origem abastada, o que surpreendia a todos que o encontravam jogado num canto de calçada, agarrado a um saco de aniagem podre, bêbado, cantando canções de dor-de-corno. Eis o que nos leva à segunda parte de sua história: segundo era consenso – inclusive para Maria Palmeiras – fora enganado pela mulher, uma morena belíssima e pela qual tinha verdadeira adoração. Um dia, voltava ele, juiz ou professor, para sua bela casa quando deu com a sua mulher e o jardineiro engalfinhados no sofá da sala de visitas.

Araçá pirou. Mudou de cidade, arranjou aquele saco podre, passou a viver como Deus permitia. Era dócil, amigo, brincava com as crianças do bairro da Velha e da rua Paraíba, contava histórias. Mas era doido. De hora para outra, parava o olhar no espaço, dizia adeus como quem se vai para sempre, agarrava-se ao saco de aniagem e ia trocar suas esmolas por cachaça. Horas depois, estava pelas ruas cantando uma canção de Lupiscínio Rodrigues. Ou seja, poderia ser gaúcho.

Todos cuidavam de Araçá, todos amavam Araçá. Havia senhoras que suspiravam quando ele passava, lamentando não tê-lo conhecido alguns anos antes. Que belo homem teria sido, sonhavam. E, como acontecia com os doidos dessa época remota, um dia ele sumiu. Só isso. Evaporou. Era assim.

Em Florianópolis, havia o Corvina. Era troncudo, baixinho, um português de padaria. Também carregava um saco sujo, mas trazia sempre com ele um porrete ameaçador. Não se sabia de onde viera. Como também era comum, surgira na Ilha de hora para outra. Todos o conheciam, lhe davam comida e roupas, suportavam seu fedor. Mas tinha duas manias: não podia ver portão aberto. Vinha pela rua, olhos atentos, e ia fechando cada portão que aparecia. Nós, os moleques da rua, íamos atrás, abrindo os portões e, então, gritávamos:

- Corvina!

Ele erguia o porrete e ameaçava acabar com nossas vidas, mas, obcecado, antes ia fechando cada um dos portões que deixáramos abertos. Quer dizer: nunca nos alcançava.

Enfim, eram doidos amenos. De alguma forma, criavam cidades mais humanas. Quase faziam parte das famílias de então que, dispondo de tais doidos, se consideravam normais.

Bom. O capítulo dos doidos é longo. Os de Curitiba ficam para a próxima crônica. E mantenham os portões fechados.

 

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