Dispensáveis coisas indispensáveis
Roberto Gomes
Houve época - os mais
jovens podem não acreditar -, em que, entre as coisas consideradas indispensáveis a
um sujeito que ia a um cinema ou a uma festa, estava um pequeno pente de bolso.
Todas as camisas tinham bolso e, nele, saltitavam, à mostra, alguns dentes
afoitos de um pente.
Não era um acessório
qualquer. Variava na cor, no tamanho, no porte dos dentes. Alguns eram duros feito mármore e outros eram moles e inquebráveis. Estes pareciam de borracha e era possível
juntar suas pontas sem que partissem – com o tempo, já não voltavam à forma
original, mas isto não era importante. O importante era exibir sua
flexibilidade em público, causando inveja nos amigos e suspiros nas garotas.
Uns pentes traziam escudos
de times de futebol, outros faziam propaganda de empresas, outros eram
brilhantes. E todos despertavam a sanha de colecionadores – pois havia
colecionadores de pentes, acreditem. Houve até uma guerra do pente, que deixou
Curitiba de ponta cabeça, mas trata-se de outra história, que não importa aqui.
Aqui importa que pente era
indispensável. Sem pente o sujeito estava nu, exposto à curiosidade pública e
ao achincalhe.
Da mesma época paleolítica,
vem outro objeto indispensável: o lenço. Não se saía de casa sem lenço, de
preferência branquíssimo, limpíssimo, tão limpo e
branco que não servia para nenhuma das utilidades a que se destinava. Servia
apenas para estar no bolso, muito bem passado a ferro, dobrado com rigor
geométrico, parecendo obra de Spinoza. O lenço viajava no bolso da calça e o
pente no bolso da camisa.
Sem pente e sem lenço o
sujeito estava frito, como se dizia então. Não tinha a menor condição de se
impor na roda de amigos, não namorava ninguém, não era levado a sério. Sem
pente, lenço e documento, era uma ousadia sem nome.
Ao contrário do lenço,
raramente usado – paradoxalmente, era considerado falta de educação assoar o
nariz em público –, o pente era usado com uma freqüência espantosa. Volta e
meia alguém sacava do pente, como John Waine sacava
do revólver, e ajeitava o penteado.
Até hoje não sei que
necessidade era aquela de se pentear e não consigo me lembrar que aqueles
fossem tempos de muita ventania. Além disso, os penteados masculinos eram
lisos, empastelados junto ao crânio à custa de doses de gomas engorduradas e
colantes – glostoras, gumex
e afins. Grudados uns aos outros, os cabelos raramente se rebelavam, até por
serem cortados rentes, as laterais ostentando fios
espetados e duros.
Mesmo assim, era
eletrizante o momento em que se sacava o pente.
Depois, com o Elvis Presley, os cabelos se rebelaram, avolumaram-se em topetes
de engenhosa e ousada arquitetura e passaram a balançar ao ritmo do rock and roll – naquele tempo rock
tinha nome e sobrenome. Mas o pente sobreviveu. Meio humilhado, imagino, pois
os topetes, mal eram ajeitados, já se soltavam no espaço, sendo aquela uma
época de grande rebeldia.
O pente, então, se tornou
um sobrevivente da época de meu pai, com seus cabelos duros e lisos de índio,
seus cortes Príncipe Danilo - nem me peçam para explicar o que era isto. Por
outro lado, meu cabelo era crespo, não permitia topete, o que me colocava no
limiar entre duas eras, já que os cabelos crespos ainda não tinham sido
colocados na moda pelo Jimmy Hendrix e o Caetano.
Renunciei ao pente.
Mas eu não queria falar de
nada disso. Queria, repetindo minha mãe – que repetia a avó dela –, dizer que
cada tempo com seu uso, cada roca com seu fuso. Hoje pouca gente sabe o que é
uma roca ou um fuso, mas os usos estão por aí. Hoje, digamos, a roca é o
celular e seu uso é andando pela rua, a mão nos ouvidos. Não se vai nem ao
banheiro sem o celular. Suspeito que eu e o Solda
sejamos os últimos sujeitos no planeta que não usam esta dispensável coisa
indispensável.
Diga-se em favor do pente
que ele tinha uma função clara, pentear. Já o celular manda mensagens, navega
pela Internet, prevê o tempo, serve de calculadora, máquina fotográfica e
filmadora, dizem até que serve de aspirador de pó e escova de dente, além de
outros usos inconfessáveis. Agora, permitir conversação clara e inteligível já
é pedir demais. Quando sou obrigado a usar um celular, me sinto num antigo
filme de guerra, mergulhado numa trincheira (a linha Maginot,
talvez; como estão vendo, esta é uma crônica de alta erudição histórica), em
meio a um intenso fogo cruzado, enquanto tento aos berros me comunicar com a
retaguarda da tropa através de um daqueles telefones movidos à manivela.
Nunca viram? Nem eu. Só em
filmes. Não está mais em uso.
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