De abóboras e abobrinhas

Roberto Gomes

 

Flaviana, mineira e mãe de minha neta Luiza, foi a primeira pessoa a me falar de cabotiá. Em meu estado de perpétua distração, examinei o prato a minha frente e comentei:

- Mas isso é abóbora.

- Não, explicou a Flaviana. É cabotiá.

Fiquei quieto, não me meto em polêmicas culinárias. E me servi de cabotiá. Parecia abóbora, tinha gosto de abóbora, cheiro de abóbora. Mas era cabotiá.

Na verdade, o que me intrigava era a palavra. De onde viria? Parecia vocábulo guarani e soava tão saborosa quanto aquilo que designava. Foi quando alguém acrescentou, aumentando minha confusão:

- É abóbora japonesa.

Foi tudo. O resto se deu há pouco, uns três ou quatro anos depois,

Dia desses, eu lia uma história do Japão, quando, entre análises do poderio dos tennos, dos samurais, do bakufu e da predominância do cultivo do arroz, fui surpreendido pela observação de que, antes do fechamento do país ao resto do mundo, no século XVII, navegadores ibéricos aí introduziram novas espécies de vegetais.

E acrescentou o historiador José Yamashiro: foi nesse momento que, originária da América Central, chega ao Japão, via Cambodja, a abóbora. Era a chave que eu procurava: os japoneses, ao adotarem a abóbora, aplicaram nela a denominação kabotcha, que nada mais indica do que o país a partir do qual ela chegou ao Japão: Cambodja.

Eis como um vegetal – resisto a chamar abóbora de vegetal, acho que tem jeito de fruta, mas minha opinião é um equívoco, é claro – sai da América Central, atravessa o mundo daqueles séculos distantes, chegando finalmente ao Cambodja e desembarcando no Japão, onde uma nova palavra é criada para designar a novidade.

Descobri, então, em outras fontes, que a abóbora japonesa é também conhecida por "tetsukabuto", resultado de um híbrido do cruzamento de duas espécies de abóbora:  a moranga (fêmea) e a abóbora (macho). A "família das abóboras" existe há pelo menos 10 mil anos no continente americano. Já eram utilizadas pelas civilizações Azteca, Inca e Maia.

 Quando os japoneses vieram, no início do século XX, para o Brasil, a palavra fez a viagem às Américas, acompanhando por certo um saquinho de sementes que um japonês, a bordo do Kasato Maru, trouxe na mala ou no bolso. Quantos séculos foram gastos nessa caminhada? Cinco? Quatro? Seis?

Hoje é possível encontrar até mesmo discussões a respeito do nome adequado. Poderia ser abóbora cabotiá, cabotiã, caborchar, cabotcha ou cabotchã, sendo que alguns insistem em grafar a palavra com um nipônico K inicial. Assim, a transcrição do nome da chamada abóbora japonesa sempre causa polêmica, o que, segundo um estudioso, decorre do fato de não estar dicionarizada.

Mas, se não está dicionarizada, para mim está pelo menos estabelecido que deriva do nome do país através do qual chegou ao Japão. Cambodja virou nome de abóbora. É o mesmo caso acontecido com a batata-doce. Originária da América do Sul, alcança a China, passando por Ryukyu e Satsuma, motivo pelo qual se tornou conhecida como Satsuma.

Não bastassem essas razões para se perceber na trajetória dessa palavra e desse vegetal um resumo da história humana, fui surpreendido dia desses pelo retorno – o Brasil é um país condenado ao eterno-retorno das polêmicas inúteis, como sabemos – às pautas de discussões do problema das palavras estrangeiras presentes na língua que falamos. Há aqueles, puristas ortodoxos, que querem proibir por lei – ah, as leis! – o uso de palavras estrangeiras entre nós.

Pois saibam esses senhores que agora temos mais um motivo para defender a tese contrária. Se fôssemos eliminar a palavra cabotiá, estaríamos fulminando com uns quatro ou cinco séculos de história e com o trabalho milenar de astecas, maias, incas e japoneses. Seria um desastre.

Afinal, como espero ter demonstrado, de abobrinha em abobrinha sempre se pode aprender muita coisa.