Da inutilidade de todos os manuais

Roberto Gomes

 

1. Este Manual

 

Este manual foi escrito para ajudar os leitores a aceitar, sem culpa, a inutilidade de todos os manuais. Portanto, se o leitor não quiser ler o que aqui vai escrito e fazer tudo a seu modo, por tentativas e erros, seguindo sua intuição, não se sinta constrangido. Estará fazendo o que 99% das criaturas humanas normais fazem. De resto, os manuais costumam ser incompreensíveis.

 

2. Como proceder

 

Antes de usar/instalar o produto em anexo – seja um penduricalho a mais no seu computador, um aparelho de som ou mesmo um inofensivo barbeador elétrico – o leitor deverá abrir a embalagem. Como sabemos, as embalagens não são feitas para serem abertas, mas para serem fechadas – o que cria um certo problema. Desde aquele celofane escorregadio dos CDs até aquelas caixas lacradas com fitas adesivas poderosas e encaixes mais complexos do que as posições do Kamasutra, a embalagem causará problemas. Aconselhamos que o usuário não reaja dando dentadas nela, atacando-a com chutes ou golpes de canivete. Vá com calma. Quem cria embalagens sempre comete algum erro, o que permitirá que, ao final, ela seja aberta.

Comece aplicando o princípio ontológico da falsa pista pontilhada. Onde está escrito, em letras diminutas, “pressione aqui para abrir”, nem pense em colocar o dedo ou o nariz. Não é por aí. Se você tentar pressionar, puxar, apertar, rasgar ali onde está o pontilhado, conseguirá no máximo quebrar a unha ou danificar o aparelho em questão. O celofane, se for o caso, sumirá de suas vistas e resistirá incólume. A fita adesiva rangerá bravamente. O papelão enroscará no suporte de isopor.

Portanto, diga um palavrão e ataque com alguma fúria, usando faca, punhal ou serra elétrica. A embalagem abrirá facilmente.

 

3. Siga os passos – mas não pergunte para onde.

 

Aberta a embalagem, consulte este manual, evitando as páginas escritas em japonês e sânscrito. Se souber ler inglês, vá em frente, estamos no Brasil. Aconselhamos que não leia o texto que dizem ser escrito em português. De fato, é algo parecido com português, lembra um pouco. O tradutor abriu um dicionário e foi lascando palavras como quem semeia ao vento. Deixou a sintaxe do inglês (ou do sânscrito) e substituiu as palavras. O resultado é semelhante ao dos tradutores disponíveis na Internet.

Por exemplo. Digite num destes tradutores: “Olha que coisa mais linda mais cheia de graça”. Ele devolve: “it looks at that prettier, fuller thing of favour”. Só para chatear o tradutor, recoloque o que ele traduziu e peça para voltar ao português. Aparecerá: “olha aquele mais bonito, uma coisa mais cheia do favor”.

Acho que foi um destes tradutores que a equipe do Bush, a partir de documentos em árabe, usou para chegar à conclusão de que o Iraque estava fabricando armas de extermínio em massas. Deu no que deu.

Por isto, aconselhamos que leia o texto em espanhol. Não ajudará muito, mas é menos provável que você perceba as barbaridades ali escritas. E, se perceber, não ficará irritado. Você quer apenas seguir as instruções, lembre disso.

De resto, siga as instruções, como diziam os clássicos, cum grano salis (não coloque em nenhum tradutor, é um perigo, não se sabe o que pode resultar). Digamos: vá com calma e bom senso.

Conecte fios, plugue na entrada tal, deixando o botão na posição on ou off, verifique a voltagem, espere a luz amarela acender. Não acende. Da caixa de som ou de seu barbeador sai um ruído gutural. Não estranhe. Recomece. Ligue e desligue, reze duas ave-marias, espere a luz amarela se manifestar. Nada. Você esqueceu de colocar o tal botão na posição on. Ou era off? Volte ao manual. Não está prevista a enrascada em que você se meteu.

A partir deste ponto, você tem duas alternativas. Ou chama aquele sobrinho meio biruta que vive mexendo com informática ou faz como o Gordo e o Magro, que, depois de tentar consertar o Ford Bigode, jogaram todas as peças dentro do motor de qualquer jeito e com muita fúria. Não esqueça da fúria. Funcionou que foi uma maravilha.

robertogomes@criaredicoes.com.br