Cuidado com frases (mal) feitas

 

Roberto Gomes

 

 

Circula por aí uma frase feita que me choca. Alguém cita um jogador de futebol, um autor de romance, um músico, um filme, um sambista, e alguém dá uma risota de desprezo e diz, com ares de superioridade:

- Não é do meu tempo...

É uma frase lamentável. Quem a diz quer insinuar que é mais jovem do que os outros e que só se interessa por coisas recentes – em todos os casos, ignora o que não é do “seu tempo”.

É estranho, mas compreensível.

O que pretende ser uma tirada de espírito, é um elogio à ignorância. De uma ignorância autocomplacente, o que é pior. Senão, vejamos: Aristóteles, Leônidas da Silva, João da Baiana, Fred Astaire, O. Henry, Mozart, Machado de Assis, Getúlio Vargas, Abraham Lincoln, nenhum deles é do “nosso tempo”. No entanto, não passa dia sem que falemos neles, lembrando um samba, um livro, uma idéia, um feito que praticaram.

Enfim, vivemos sempre às voltas com criaturas das quais só temos notícia. Morreram há séculos ou há décadas. Jamais cruzamos com elas. Temos delas só uma imagem mental, um conjunto de registros ligados àquilo que foram e fizeram. Nenhuma é do “nosso tempo”.

Por isso não entendo quem se vangloria da própria ignorância. O divertido na vida é que o pensamento, a memória, a linguagem, nos permite descolar do presente, daquilo que é imediato, e viver uma deliciosa atemporalidade. Não há dia em que eu – que sou um maluco inofensivo –, não discuta alguma coisa com Sócrates, em que não me lembre de jogadas geniais feitas por Canhoteiro, que nunca vi jogar. Volta e meia lembro de alguma frase de Voltaire, que morreu em 1778, mas que continua aqui, neste conjunto de memórias que trago na cabeça.

Além de me intrigar, me comove a ignorância satisfeita dos que alardeiam que existem coisas que não são do seu tempo.

Se Terêncio – de outro tempo, o século II a.C –  dizia que “nada do que é humano me é estranho", devemos dizer que tudo que aconteceu é do nosso tempo e nos interessa. Se faço teatro, preciso saber como os gregos faziam teatro. Se escrevo romances, quero saber como Cervantes narra tal episódio. Se sou arquiteto, me interesso pelas construções medievais. Caso contrário, serei péssimo em qualquer coisa que fizer.

Limitar-se a viver no presente é de uma burrice atroz. O ser humano só é humano porque é capaz de escapar do presente e viver o futuro e o passado. Para um idiota da objetividade, uma cadeira é apenas e sempre uma mesma cadeira. Mas, se for Joaquim Tenreiro ou Frank Llyod Wright, será capaz de inventar uma cadeira jamais vista.

É isto que torna o homem singular: a negação do presente. Assim, a bicicleta do jogador Leônidas, que nunca vi jogar, faz parte de minha vida e a enriquece, bem como os pensamentos de Pascal, as tiradas de humor de Mark Twain, as estrepolias do pincel de Chagall, as tiradas de Benedito Valladares ou de Maneco Facão. Ou um si bemol de Bach.

Não são do seu tempo? Pois deveriam ser.

Seu tempo ficaria mais rico, mais divertido, se ampliaria enormemente. No meio de uma discussão você poderia viajar vinte e cinco séculos e confrontar o que está pensando com o que pensava Górgias de Leontinos, um sofista grego do século V a.C. Assistindo cinema, poderia rever como Chaplin, de costas, fazendo um coquetel, nos leva da comoção ao riso em segundos. Lendo Gogol, não correria o risco de achar que Paulo Coelho é um escritor. E, assistindo futebol, poderia lembrar de uma jogada que só viu em filme: Djalma Santos jogava assim na lateral direita.

Portanto, nosso tempo é sempre. E aconselho a todos: não vivam na mediocridade do “meu tempo”. Vivam todos os tempos. Ao invés de fazer pose de jovens, façam pose de Matusalém: encharquem sua imaginação com tudo que a aventura humana foi capaz de produzir, de melhor e mesmo de pior, pois, como dizia Manoel Bandeira (é do seu tempo?), “é preciso ler os maus poetas para saber como não devemos escrever versos”.

 

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