Como morrem os imortais

 

 

Roberto Gomes

 

Registros confiáveis indicam que na época já existiam 293 ou 297 academias de letras na cidade, sendo que a meta era alcançar, no prazo de dez anos, o número cabalístico de 365 instituições. Uma academia para cada dia do ano, a exemplo da cidade de São Salvador da Bahia com suas 365 igrejas. Ao lado de uma cidade devotada à fé, outra devotada àquilo que os nativos chamavam de “as letras”.

Por esta razão, as academias se multiplicavam numa velocidade enorme, espalhando-se em variedades e dissidências, correntes opostas ou complementares, grupelhos de amigos ou inimigos fraternais.

Infelizmente, podemos citar só algumas delas, cujos nomes foi possível identificar em restos de papéis que sobreviveram ao incêndio do qual logo se falará. Havia a academia dos Livres, dos Padrinhos Convictos, dos Cultivadores de Letras Mortas – aos quais se opunham, podemos supor, os Cultivadores de Letras Renovadas –, das Senhoras de caráter sem jaça e dos Senhores sempre prontos à ação, dos Solidários na Missa de Sétimo Dia, dos Democratas às sextas-feiras, dos Seguidores de Frases Longas, dos que Cultivam Truques Barrocos, dos que Fazem versos como quem morre e dos que fazem versos como quem cospe pedregulhos.

Enfim, um infindável desfile de amor às letras.

Com o tempo estas instituições enfrentaram dificuldades. Uma delas, como preencher suas vagas – em média, 290 imortais por academia – com escritores que tivessem escrito ao menos uma carta à namorada ou um bilhete ao pai pedindo mesada. Por isto, foram admitidos acadêmicos que haviam apenas redigido, com ajuda daquele sobrinho mais esperto, um discurso de formatura ou um trabalho de conclusão de curso.

Muitos se inscreveram apresentando atas de reuniões de clubes de futebol, cartas ao síndico do condomínio, reclamações de multas recebidas no trânsito, abaixo-assinado defendendo alguma candidatura municipal. No entanto, eram manuscritos feitos de próprio punho, pois, como atesta uma declaração anexada pelos presidentes das academias que propunham as candidaturas, “os requerentes têm redação própria”.

Tendo redação própria, eram escritores e estava acabado. Podiam ocupar as vagas disponíveis e fazer uso dos títulos que tal investidura implicava, tais como Nobre, Distinto, Intelectual, Prezado Colega e aquele que era, dentre todos, o mais cobiçado: Imortal.

Eis como, no espaço de dez anos houve a multiplicação de vagas e pressa em se atingir o número de 365. Conforme suspeita o Doutor Emerich von Taller, da Universidade de Munique, que dedicou a vida a estudar o assunto, nos últimos três anos foram abertas 58 academias e a média de vagas subiu para 372 por instituição. Desta forma, a cidade teria completado a meta de 365 academias, com 372 vagas cada uma delas, o que significa uma população mínima de 135.780 Imortais.

Segundo dados confiáveis fornecidos pelo IBGE para o ano em pauta – e não se trata de mera coincidência – era este o número exato de habitantes da cidade: 135.780.

Todos, portanto, ocupavam uma cadeira acadêmica, fazendo discursos, tomando chá e comendo biscoitos finos.

Segundo o Dr. Emerich, estas atividades literárias intensas –– pelo acúmulo de papéis e pastas e arquivos e cartões postais com sonetos, pôsteres com ditirambos, guardanapos com micro-poemas – talvez explique a fúria com que o incêndio devastou a cidade justo no dia de seu aniversário de independência. A origem do fogo é desconhecida e já foram levantadas hipóteses de boicote, de fogueira das vaidades, de combustão espontânea gerada pelo aquecimento de tantos cérebros produzindo simultaneamente, além da opinião de Martin Feldespatho Assunción, pesquisador colombiano, segundo o qual alguém acendeu um fósforo e foi o bastante.

A catástrofe se instalou e a cidade foi consumida pelo fogo em exatas duas horas, juntamente com seus 135.780 habitantes. Eis como morreram tantos Imortais, dos quais, infelizmente, não nos sobrou nenhum documento impresso que possa ser analisado com algum rigor literário.

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