Como destilar memórias sem
muita dor

Roberto
Gomes
- Lembra?
O outro
balançou a cabeça. Lembrava.
- Suspicious minds – disse,
sorrindo.
- Você não
entendeu. Estou falando da Glorinha.
- Eu também.
- Agora quem
não entendeu fui eu.
- Quando
conheci a Glorinha, tocava Suspicious minds no rádio do carro.
- Ah, entendi.
No carro do Érico, é claro.
Riram os dois. Naquela
época, Érico era o único amigo que tinha carro.
- Era uma bela
mulher, disse ele.
- Mulher, não.
Garota.
- Garota, vá
lá.
- Eu olhava
para os joelhos dela. Via galáxias, paraísos, dormia
com a cabeça nos joelhos de Glorinha.
- Mais
respeito!
- Belos
joelhos.
- Naquele
tempo, ver o joelho de uma garota era o máximo.
- Época remota,
antes da Mary Quant. As mocinhas eram recatadas, os
rapazes eram patifes. O mundo obedecia a uma ordem natural e tudo parecia estar
no seu devido lugar.
- A gente
ensaiava olhares de cafajeste na frente do espelho, lembra?
- E erguia o
topete com brilhantina.
- Usando camisas
pretas de gola alta.
Ficaram em
silêncio. Uma jovem atravessou a rua, emoldurada pela janela do bar.
- Elas estão
lindas, não é?
- Belíssimas.
- Saúde, coxas
fortes, seios fartos. Barriguinha de fora.
- Queria ser
jovem hoje.
- Acho que não
adiantaria.
- Ah, está mais
fácil. As cabeças são melhores.
- As cabeças e todo
o resto.
- É. Talvez
hoje um de nós conseguisse namorar a Glorinha.
- Sabe que eu não
me perdôo?
- Eu também
não.
Fizeram uma
pausa dolorosa, olharam para a rua por alguns minutos.
- E ela casou
com aquele chato.
- Chato e
metido a besta.
- É verdade,
fez o outro, suspirando: Ah, Glorinha!
- Como era o
nome dele?
- Ademar.
- Veja só, Ademar.
O que será que a Glorinha viu nele?
- Era um
cara-de-pau. Mulheres adoram caras-de-pau! Nós éramos uns tímidos idiotas.
Balançou a
cabeça, concordando:
- É verdade.
Uns tímidos idiotas.
- Anos depois, a
Ruth, minha prima, me contou que a Glorinha, com filhos, ainda bela, disse que sempre
esperara que eu fosse tirá-la para dançar. Confessou que adorava meu ar
misterioso.
- Não acredito.
- Como não
acredita?
- No teu ar
misterioso. Era apenas cara de bobo...
Riram. Um deles
acendeu um cigarro e perguntou:
- Que horas
são?
O outro
consultou o relógio: onze e meia.
- Já é tarde.
- Tarde demais.
Pede outra cerveja.
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