Carta aberta aos ouvidos fechados

 

Roberto Gomes

 

 

Recebi do irascível e tempestuoso Tremembo Kees, meu vizinho – aquele que faz discursos em praça pública e lê Graciliano Ramos antes do café da manhã –, a carta abaixo. Pede que eu a publique como direito de resposta a todas as declarações e notícias políticas que têm aparecido nos jornais. Não sei se seu pedido tem base jurídica, mas, como estou sem assunto nesta semana, transcrevo a carta.

 

“Prezados Senhores,

 

Espero não ser demais pedir a leitura destas mal traçadas. Os senhores são homens ocupados, cuidam de suas empresas, de suas ações e de seus dólares, de seu mandato e da contagem de seus votos. Não têm tempo para leituras, eu sei.

Mas, mesmo assim, insisto. Gostaria de pedir que os senhores, nesta campanha eleitoral que se aproxima, não tentassem poses de estadistas, não dessem declarações de que não estão em campanha, de que não são candidatos antes da convenção, de que não usam a máquina do estado ou o caixa dois. Os senhores estão mentindo e nós sabemos disso. Portanto, economizem hipocrisia.

Além disso, não gastem tempo e esforço com sua imagem. Nada de ternos caros, de gravatas rutilantes, de sapatos fosforescentes – ou, se seu modelito for popularesco, nada de camisetas, bonés e ingestão de sanduíches de queijo e presunto na padaria da esquina. E, pelo amor de Deus, não se metam a torcedores da seleção brasileira.

Não vistam a amarelinha em vão. Não ensaiem gritos diante da televisão, não façam declarações patrióticas quando o Ronaldinho, o gaúcho, der um drible. Há coisas que precisamos respeitar. Por exemplo: o gosto do povo pela cerveja, pelo bife com arroz e feijão e pela seleção brasileira. Não coloquem seus sapatos italianos neste gramado, não emitam declarações ridículas sobre futebol. Não revelem que são torcedores do Palmeiras ou do Corinthians. Deixem ao povo ao menos a ilusão de que o futebol é dele, é feito por ele, sendo expressão de suas melhores virtudes.

Por outro lado, não prometam nada. Deixem a educação, a saúde, as reformas agrária e tributária em paz. Renderiam votos, eu sei, mas deixem. A cada reforma anunciada pelos senhores, lembro de meu pai esbravejando contra um novo anúncio de reforma agrária, que ele desprezava. Era da UDN, compreende-se. Eu era menino e desde então ouço as mesmas promessas de reformas que jamais se efetivam.

Parem com isto, portanto. Já cansou. Se vocês – políticos, grandes empresários e conglomerados financeiros – não permitiram estas reformas até hoje, elas não serão feitas jamais. Então, que não façam, tudo bem, mas ao menos fiquem quietos, não nos chateiem.

Depois, seu interesse pela educação é falso, seus discursos sobre cultura são postiços. Os senhores, sempre querendo levar vantagem, acham que educação e cultura são mero trampolim para se obter lucro. Os professores ganham miséria, as escolas estão aos pedaços, hoje os universitários não sabem ler, os secundaristas não sabem soletrar, as crianças não sabem tabuada. Chegamos ao fundo do poço. Então, chega.

Educação, meus senhores, não dá lucro, a não ser para empresários da educação. Cultura – e não diploma – só traz incômodo. O senhor lembra da reação que teve quando seu filho disse que, ao invés do curso de administração, gostaria de ser ator de teatro? Quase deportou o filho para um colégio nos EUA, um daqueles que formam mentes corporativas. Então, não fale em cultura, em livro – quando foi a última vez que o senhor abriu um livro para ler? Deixe os livros quietos, eles são mania de gente de outro planeta. O Saramago está certo. O seu caso é outro.

Enfim, não abracem velhinhas, não beijem professorinhas, não peguem crianças indefesas no colo. Ou não abracem criancinhas, não coloquem professorinhas no colo, não beijem velhinhas indefesas. Por aí. Sobretudo, não inaugurem nada. Não jurem que não vão baixar o nível da campanha eleitoral, não declarem que têm muito respeito pelos adversários quando sua vontade é dar um soco na cara do sujeito ou puxar o revólver.

O motivo é simples, meus senhores. Nós já cansamos de tudo isto, já vimos este filme, sabemos de cor os pequenos truques retóricos e as jingas malandras que os senhores executam imaginando que são equivalentes a um passo de Nijinski, uma melodia de Eric Satie, um trecho de Pedro Nava. Não, não são jogadores da Ucrânia, da França ou da Itália. São extraterrestres.

Enfim, seria bom que os senhores mudassem o disco. Estamos surdos de tanto que não nos ouvem.

Passem bem. Ou mal.

Tremembo Kees, que só acredita no inacreditável.

e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br