Caminhos de uma noite escura

 

 

Roberto Gomes

 

O homem era pequeno e gordo, mas parecia sólido. Um objeto redondo e forte. Os braços eram curtos, as mãos eram grandes, o jeito de andar denunciava que estava cansado ou vencido por alguma dor que desistira controlar. Movia-se com lentidão, não pelo cansaço, mas por alguma determinação à qual se submetia.

Carregava um saco plástico grande e negro, rebelde às suas tentativas de mantê-lo sobre os ombros. O saco despencava para os lados a todo momento. Por isso ele dava solavancos com os ombros, sacudindo vigorosamente a perna direita num chute brusco – o saco ia para o lugar e ele andava uns metros. Logo a aflição recomeçava: o saco deslizava, o homem dava um chute no ar e tudo se arranjava por alguns passos.

Gastara vários minutos, talvez uns vinte, para ajeitar o que colocara dentro do saco. Parado ao lado da caixa coletora de lixo do condomínio, foi escolhendo o que era de seu interesse. Latas, via-se pelo brilho súbito. Mas também papéis, papelão, objetos de plástico. Garrafas. O saco aumentava de volume e se deformava, enquanto o homem lhe dava bofetões de um lado e outro para que se ajeitasse. Gastou nisso os vinte minutos, depois fechou a caixa de lixo e lutou para colocar o saco nas costas, no que gastou algum tempo, pois precisou devolver duas vezes o saco ao chão, ajeitar algo dentro dele, chutá-lo com alguma irritação de um dos lados e sacudí-lo com raiva para que tudo se arranjasse dentro dele. Ao final, se plantou de pernas abertas diante de sua obra e a observou com ares de desafio. De um só golpe, agarrou a boca do saco e o jogou sobre os ombros.

Devia ser pesado. Deu um passo para a direita, outro para a esquerda e pareceu avaliar o seu destino. Súbito, deu um arranque e subiu a rua, certamente o caminho mais difícil.

Vindo de uma rua lateral, o primeiro rapaz, camuflado na escuridão da rua, passou ao lado dele e parou para observá-lo. Outro rapaz surgiu, pilotando um skate, e não teve tempo de desviar. Fez uma manobra brusca e trombou no braço do homem, que deu um berro e rodopiou, largando o saco no chão.

O homem esbravejou, os braços pequenos ergueram as mãos enormes, e disse vários palavrões.

Os dois rapazes apenas olharam para ele, sem reagir.

O homem ameaçou avançar sobre eles, mas parou quando eles ficaram um de cada lado, esperando o ataque e prontos para se defender.

Disse outros palavrões, agarrou o saco com raiva e o jogou sobre o ombro. Foi quando dois outros rapazes chegaram de bicicleta.

Agora estava cercado.

Os rapazes conversaram em voz baixa, olhando para ele.

O homem estufou o peito, deixou o braço esquerdo bem aberto, como se fosse uma arma perigosa, e deu um passo. Os rapazes aproximaram-se. Ele deu um giro para olhar cada um deles, mas não se moveu do lugar.

As bicicletas avançaram em sua direção. Tiraram um fino, uma de cada lado, e ele, assustado, mal conseguiu se manter de pé. Socou o ar e rosnou, engolindo certamente algum palavrão. Foi quando o outro rapaz atingiu suas costas com o skate, derrubando o saco.

Pelo chão ficaram esparramados papéis, papelões, plásticos e algumas garrafas, Uma delas quicou no asfalto e quebrou. O homem avançou sobre um pedaço da garrafa e o empunhou como se fosse um punhal. Já não falava nem dizia palavrões. Com a mão esquerda fazia gestos desafiando que viessem. A mão direita empunhava a arma.

Os rapazes riram. Um deles imitou seu gesto segurando o pedaço de garrafa. Outro fingiu que tremia de medo. Puseram-se a girar em torno dele, aos gritos, enquanto ele tentou atingi-los com golpes inúteis até cair no chão. Antes de sumir pela mesma rua de onde haviam surgido, os rapazes deram chutes nos papéis, papelões e garrafas. Depois se foram às gargalhadas.

O homem custou a se levantar. A mão com a qual segurara a garrafa estava cortada e sangrava. Tirou um pano sujo do bolso e embrulhou a mão. Levantou-se. Recolheu tudo que se espalhara no asfalto. Levou nisso mais de vinte minutos. Tudo terminado, deu um solavanco, um golpe com a perna direita e recolocou a carga nos ombros.

Poderia descer rua abaixo, mas preferiu a direção contrária, que no entanto parecia a mais difícil.