Bananão, renas e trenós

Roberto Gomes

Fim de ano. Renas, trenós, promessas universais de fraternidade e amor, neve nas propagandas e Papai Noel com uma grossa roupa de inverno. E nós, aqui no Bananão, esturricando com tanto calor e patifarias salariais de deputados e senadores. Bananão, para quem não sabe, era o nome que Ivan Lessa dava a, como diria o Lula, “este país”.

Em função das chamadas festas natalinas e talvez atordoado com o calor reinante, lembrei que há alguns meses não falava com meu vizinho, o irascível Tremembo Kees. Já contei várias aventuras desta figura, que já foi trotskista, anarquista e membro da torcida dos Fanáticos. Hoje se limita a ser ele mesmo, um homem em estado de permanente indignação, que é o que falta, diz ele, ao Bananão. A última notícia que tive de Kees foi a passeata que liderou aqui no bairro, reivindicando recuperação das nossas ruas, remendadas com uma tinta de asfalto que se desfaz em mês e meio de tráfego. Desfilou acompanhado de uma dezena de freqüentadores do bar do cego Tião e três dos seus cachorros, “os mais politizados”, conforme informou a um atônito repórter de televisão que filmou o evento.

Não conseguiu nada, é claro. As ruas seguem esburacadas e, como se não bastasse, a iluminação noturna lembra o ambiente ideal para certos boleros de Agostín Lara.

Fui à casa de Tremembo Kees munido de um presentinho simples – uma barra de chocolate amargo, seu preferido – e dei com o nariz na porta. A casa estava deserta, o jardim com a grama crescida e o canteiro de beijos (ele prefere chamar de maria-sem-vergonha) estava murcho. Apertei a campainha – que toca os três primeiros compassos da Marselhesa – e ouvi os latidos dos oito cães que lhe fazem companhia e que ele considera “a humanidade suportável”.

Fui então ao bar do cego Tião, centro nervoso da Vila, onde se sabe de tudo. Tremembo viajara, deixando apenas a chave do portão para que dona Martinica, faxineira do bar, alimente os cães. Mas o que houve? indaguei ao Tião.

O cego me olhou apiedado, como se eu fosse um alienígena, e resmungou:

- Sumiu, é claro.

- Sumiu? É claro?

- Claríssimo! Não lembra que todo fim de ano ele desaparece?

Foi quando me dei conta de minha distração. Tremembo Kees detesta Natal, festas de fim de ano, Papai Noel, canções natalina do gênero jingo-bells. Todo final de ano ele desaparece, mal começa dezembro. Nunca se sabe onde se mete. Quando o cego Tião lhe pergunta para onde vai, diz que se trata de um refúgio onde não existem amigos secretos, taças de champanhe, troca de presentes, nem o frenesi das vendas a crédito. Entrega a chave do portão, deixa uma grana para a ração dos cães com dona Martinica, e some.

Não dá informações de onde possa ser encontrado e, como é um dos poucos habitantes do planeta que se recusa a usar celular, fica inacessível. Se Tião pergunta quando volta, ele resmunga:

- Quando baixar a poeira natalina.

Não se deve imaginar que Tremembo seja avesso a todo tipo de festa. Gosta de acompanhar futebol de várzea, adora bailões na periferia – é conhecido como exímio dançarino, inventor do doble-kees, um passo de tango que só os acrobatas do Circe du Soleil são capazes de reproduzir. Além disso, bebe cerveja em quantidades industriais com amigos que cultiva no lado mais pobre da vila. Enfim, não é um misantropo. Mas quer distância do Natal.

A razão desta aversão resulta do rigor com que ele encara tudo que se passa a sua volta. Embora agnóstico convicto, acha que o Natal foi usurpado. Quando questionado pelos festeiros, pergunta:

- O que se comemora nesta data?

- O nascimento de Cristo, responde Laurinho Telefone, com um sorriso cínico.

- Então, me expliquem o seguinte: o que faz este ridículo velhinho consumista, com esta roupa inventada pela Coca-cola, na comemoração do nascimento do filho de Deus?

Espanto no boteco. Tremembo Kees, o agnóstico militante e apocalíptico, pronuncia a expressão “o filho de Deus” com a santa indignação de um apóstolo. Ninguém se atreve a contestar.

- Pois que baixe a poeira, finaliza ele, antes de sumir.

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