Atônito homem
novo

Roberto Gomes
Anita abriu o
armário do banheiro, remexeu as gavetas. Nada. Saiu pelo corredor, os cabelos
molhados, enrolada numa toalha:
- Luiz! Ô Luiz!
Foi encontrá-lo no quarto, parado em
frente ao espelho do guarda-roupa, cuidando dos cabelos – tarefa na qual
consumiria ao menos meia hora.
- Onde está meu creme, Luiz?
Ele se virou lentamente, um tanto
desatento, como se precisasse de algum esforço para desligar seu olhar do
espelho.
- O creme?... Usei. Acabou.
Ela ajeitou impaciente a toalha em
torno do corpo:
- Luiz, isso tem que acabar.
- Pois acabou, respondeu ele. Eu compro
outro.
- Você não está me entendendo, Luiz.
- Não? – ele se voltou para o espelho e
agrupou o topete ligeiramente para o lado esquerdo – Você não quer que eu compre outro?
- Luiz, quero
que você acabe com essa coisa de usar meus cremes, de passar horas na frente do
espelho. Quero que isso acabe.
Ele fixou o olhar no espelho como se
perguntasse ao outro Luiz que lá estava: que está havendo, companheiro? Disse:
- Não entendi.
- Pois é, não
entendeu.
Enquanto ele escolhia que camisa usar,
ela disparou a falar a respeito das coisas que não iam bem. Estava cheia
daquilo de cremes, de depilações, de cuidados com as sobrancelhas, de roupas de
grife, de cortes de cabelo originais, de tratamento para a pele, de musculação.
- Chega, entendeu? Chega,
Luiz! Metrossexual já era!
Ele afinal escolheu a camisa e olhou
Anita como se fosse uma estranha que invadira o seu quarto:
- Mas você é que...
- Eu sei, eu sei. Mas agora estou cheia
disso, entendeu?
- Mas por que mudou de opinião?
Ela deu um safanão na toalha, que
ameaçava descer pelos seus seios, e disse:
- Não sei. Não sei.
Ele riu:
- É bem coisa de mulher! Faz um
escândalo e não sabe a razão.
Ela se agitou,
eufórica:
- Está vendo! É isso, Luiz. No fundo
você é um machão.
Ele reagiu,
humilde:
- Eu? Me desculpe,
não quis ofender.
Ela segurou a cabeça com as duas mãos.
Foi quando a toalha desabou no chão. Ele a olhou perplexo.
- Não peça desculpas, Luiz! Você não
está entendendo!
- Não?
- Não! – ela ergueu a toalha do chão e
se enrolou nela – Que tal você se permitir alguns traços de macho?
A partir deste ponto Luiz se convenceu:
não entendia mais nada. Fora criado desde criança para ser um macho, daqueles
que não chora, que não come mel, come a abelha, mas ao
longo da vida as mulheres exigiram dele ser mais delicado, mais gentil, menos
grosso, mais bem cuidado, perfumado, bonito. Agora, ela vinha com aquela
história: queria o machão de volta. As mulheres, pensou, mudam a toda hora. E
lá vamos de arrasto.
- Não quero o machão de volta, Luiz. O
que eu quero... Você...
- Sei, sei... Não estou entendendo.
- Isso. Não está entendendo. O mundo
mudou, mudamos nós, você precisa mudar.
Olhou para Anita, olhou para a toalha
que cobria seu corpo. Não sabia o que fazer. Disse:
- Não sei o que fazer.
Anita sorriu:
- Posso sugerir?
Culpa da toalha, pensou mais tarde.
Mulher embrulhada em toalha é irresistível. Isso ao menos não mudara.
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