As eleições segundo o cego Tião

 

 

Roberto Gomes

 

 

Devemos à Grécia a democracia, a filosofia, a ciência ocidental e as olimpíadas, além de outras coisas. Entre elas, um método infalível para evitar fraude em jogos esportivos. Explico: temendo que em alguma disputa um homem se passasse por mulher ou vice-versa, os atletas deveriam competir nus. Simples.

Mas não é esse procedimento radical que penso recomendar. É outro. Na verdade, não sou eu quem recomenda, é o cego Tião, administrador do mais famoso e movimentado boteco aqui da Vila.

Tião, além de versado na preparação de rolmops e de doses fulminantes de aguardente, entende também de cultura grega e decretou que a melhor maneira de se fazer uma eleição é seguir o modelo helênico. Foi o que explicou em reunião preparatória à eleição do Síndico da Vila, espécie local de encarregado de resolver briga de vizinhos, de casais, de torcidas, de amantes, além de zelar pelo estado da ponte do córrego da Vila pela qual passam dezenas de carrinheiros por dia.

O atual síndico é Carlão Borracheiro, que deixa o cargo para se dedicar às relações da Vila com o exterior, que é como o povo daqui se refere à cidade de Curitiba. Vai organizar as idas e vindas dos carrinhos que aqui chegam carregados com o lixo curitibano.

Na verdade, as verdadeiras intenções de Carlão Borracheiro, rapaz pouco sutil, causam grande polêmica e dividem as opiniões no boteco. Laurinho Telefone, desiludido com a política, nem faz mais jus ao apelido. Abandonou o celular, que mantém desligado, e jura que jamais tornará a se envolver com política, seja a da Vila ou a externa. Depois das leis de controle do nível alcoólico dos motoristas, vendeu o carro e transformou o montante apurado numa bela adega, fazendo o caminho entre o boteco e sua casa a pé. Bebe lá e cá e ninguém o chateia. Além disso, depois que excluíram os fumantes dos espaços públicos, ameaçou tornar-se abstêmio, o que deixou em pânico o cego Tião, pois as ações do boteco despencaram na bolsa da Vila. Doutor Asclépio Data Vênia, o causídico local, de pronto arrumou um salvo-conduto para que Laurinho fume onde e quanto quiser.  É um rebelde, como se sabe.

Mano Macieira, que em outras épocas agitou bandeiras, ameaçou fortalezas e liderou multidões inexistentes, hoje é um senhor respeitável metido num eterno paletó cinza, que se dedica, no exterior da Vila, a tarefas de estado imbuído do mais severo espírito pragmático. Para ele, tudo deve ser encarado com espírito de estadista. Pensa no futuro, ignora miudezas, aceitando aliados de qualquer tipo e qualidade desde que os fins os justifiquem. Desta forma, o Dr. Asclépio, anarquista visceral, lamentou assistir a aliança, jamais pensada, entre Mano Macieira e Carlão Borracheiro, a quem em outras épocas Mano aplicou apelidos que eu jamais ousaria publicar nesse honesto jornal que o leitor tem nas mãos.

Mas estou me perdendo. A idéia do cego Tião, eis do que esqueci. Em primeiro lugar ele alega que, sendo as campanhas todas iguais, o mais econômico seria colocar no ar as propagandas já gravadas em anos anteriores. Assim, nos monitores da Vila e nos auto-falantes da igrejinha e do campo de futebol, rodarão frases, poses e projetos antigos. Economizaríamos muito, diz o Tião, que tudo vê da ótica de sua gaveta do caixa, onde guarda os trocados com os quais financia campanhas. Tudo se resume, diz ele, em ajeitar os programas às novas alianças. Sendo agora Carlão aliado de Mano Macieira, os dois poderão usar as propostas de seu Martinho Dias, ex-sargento do exército, hoje lidando com ferro-velho. Já as idéias de doutor Asclépio irão para os candidatos da aliança de Ritinha É-Só-Bondade com a turma do reciclável.

Mas ainda não falei na inspiração grega do Tião. Me perdoem. Aqui está: os gregos tomavam várias decisões vitais, inclusive sobre a constituição dos conselhos de estado, através de sorteio. Colocavam os nomes numa cumbuca e tiravam a sorte. Alegavam que o sorteio é a forma mais segura e desapaixonada de escolher um dirigente. Além disso, homenageia os desígnios dos deuses.

Eis, caros leitores, a contribuição da Vila para a democracia nesses e noutros arredores, o Brasil e Curitiba aí incluídos.

 

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