Quando Aristóteles virou autor de auto-ajuda.
Ou quase
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Roberto Gomes

 

Estas mensagens anexadas a e-mails costumam me assombrar. Umas anunciam o fim do mundo, outras pretendem revelar segredos de polichinelo ou fofocas toscas, outras destilam ressentimento de homens contra mulheres ou de mulheres contra homens, um horror. Sem falar na infindável lista das apresentações com textos de auto-ajuda, fundo musical chatinho e letrinhas saltitantes pela tela.

É claro que considero uma maravilha o que a Internet nos torna possível. Por exemplo: no momento leio um livro de Balzac, de 1832, Le colonel Chabert, em edição fac-símile. Só a Internet me permitiria isso. Mas, ao lado desta maravilha, há os equívocos, que decorrem mais dos usuários do que do sistema.

Entre outras barbaridades, comum alguns textos forjados serem atribuídos a escritores conhecidos. O campeão é o Luiz Fernando Veríssimo, seguido pelo Millôr Fernandes. Lá atrás, como convém, o Jabor. O problema é que muitos destes textos não são deles.

Com Veríssimo aconteceu um caso notável. Circulou pela Internet, com seu nome, um texto intitulado “Quase”, que agradou aos leitores, rendendo cumprimentos ao escritor. Acontece que não foi ele quem escreveu. Tentou esclarecer, mas foi inútil – o texto continuou girando de e-mail em e-mail. Tempos depois, durante uma Feira do Livro, em Paris, o Veríssimo recebeu para autografar um livro com a tradução francesa de textos de vários escritores brasileiros. Feliz da vida, ele foi conferir o que haviam publicado de sua autoria. Lá estava aquele da Internet, o Quase.

Em março de 2005, o Veríssimo anunciou ao mundo que afinal se descobrira a autora do “Quase”. Trata-se de Sarah Westphal Batista da Silva, então com 24 anos e estudante de medicina, residente, é claro, em Florianópolis, conhecida como a ilha dos casos impossíveis. Mesmo assim, o texto segue circulando na Internet, com a assinatura do Veríssimo.

Outro fenômeno é o Millôr, que volta e meia desmente ter escrito isso ou aquilo ou confessa que nem sabe se é o autor de tal texto. Em nome de Jabor circulam textos ainda mais verbosos, furiosos e xingativos do que os que costuma escrever.

É claro que não foi a Internet que inventou nem o plágio ou a falsa atribuição de autoria, mas nela a coisa adquire um caráter novo.

Sabemos que há livros atribuídos a Platão e Aristóteles que eles não escreveram. Especialistas trocam bordoadas filológicas negando ou afirmando a autoria de vários livros. Nas obras completas de Platão – nas Edições Aguilar, por exemplo – são publicados em apêndice diversos livros, classificados assim: Obras de autenticidade não muito admitida, Diálogos duvidosos, Diálogos apócrifos. Ou seja, não são de Platão – foram talvez escritos em Florianópolis – mas acabaram incorporados às obras do filósofo. Pegou. Agora são dele. Ou quase.

Caso semelhante decorre das interferências dos copistas medievais. Na falta de máquinas xerox, os copistas passavam dias sentados numa bancada incômoda, sujando os dedos com tinta e copiando, copiando. Como era coisa chata, eles acabavam pulando pedaços, trocando palavras, às vezes por preguiça, outras por distração, outras para corrigir o autor, ou seja, pelo desejo de se tornar autor.

Acontece que o livro é uma coisa “dura”. É difícil de copiar, de transcrever, enquanto que o texto na Internet é “mole”. Não só no sentido de ser complacente, aceitando toda e qualquer intervenção, mas também no sentido de que é uma moleza interferir. O sonho de todo copista – e sem manchar os dedos.

Dias atrás recebi um destes abomináveis arquivos do PowerPoint e lá estava um texto atribuído a Aristóteles falando sobre felicidade. Percebi que a linguagem e o tom daquele eram do século XXI, não de Aristóteles. Não havia auto-ajuda nem politicamente correto no século IV a.C, na Grécia, graças ao Olimpo.

Em cinco ou seis cliques, desvendei o mistério. O texto se originou na página de um destes sujeitos que fazem palestras motivacionais. Ele largou falação sobre felicidade e, ao final, citou uma frase de Aristóteles. Até aí, tudo bem. Só que alguém copiou o texto para mandar para outras pessoas e suprimiu as aspas da citação. Ou seja, sobrou o texto e, ao final, o nome do filósofo. Que virou autor de auto-ajuda. Ou quase.

 

e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br