O amargo pássaro da
liberdade
Roberto Gomes
Antes de viajar, a mulher
fez mil recomendações. A hora da comida dos cachorros, levar os cogumelos na
casa do filho, fechar as janelas ao cair da tarde, ligar o alarme antes de
dormir. E não deixasse o portão aberto.
- Está me ouvindo?
Estou, pensou ele,
lembrando que a paciência é o caminho da sabedoria.
Na geladeira, potes de
plástico com a carne, travessas com a salada.
- O arroz você faz.
Levou um susto.
- Aquele arroz de
saquinho, ela explicou.
- Ah, sim, faço. Pode
deixar.
Trocaram um beijo, ela
entrou no carro. Recomendou que pisasse de leve e observou o carro sumir na
esquina. Quando entrava na casa, percebeu que não fechara o portão. Fechou o
portão.
Dentro de casa, respirou
fundo e se sentiu feliz. Pronto, ninguém para lhe dizer o que fazer, quando e
como fazer, ninguém para indicar que esquecera isto ou aquilo. Três dias de
liberdade total. Poderia largar as meias e os sapatos na sala, abandonar o
paletó em cima do sofá, espalhar as folhas do jornal pelo quarto. Nada de fumar
no jardim para não ouvir queixas contra a fumaça e discursos sobre fumantes
passivos.
Para comemorar a conquista
destas liberdades, acendeu um cigarro. Ficou passeando pela casa, largando
fumaça para os lados. Abriu a geladeira, pegou uma cerveja, bebeu no gargalo.
Abandonou a garrafa no corredor. Ligou a televisão e o rádio ao mesmo tempo. Na
televisão, futebol. No rádio, patifarias do governo.
Sentou-se no sofá, colocou
os pés em cima do braço da poltrona, jogou as almofadas no chão. Baforadas na
direção do teto. Tinha uma lista de coisas a fazer, mas, naquele estado
paradisíaco, concluiu que não havia razão para pressa. Ela é que sempre andava
correndo e fazendo com que ele corresse. Calma, pensou. Vou fumar o cigarro.
Viu televisão, ouviu
rádio, resolveu dar uma volta no quintal e brincar com os cachorros. Liberdade,
filosofou, é brincar com os cachorros. Retornou à casa
e, sem desligar a televisão e o rádio, colocou um CD para rodar. Abriu o jornal
e mergulhou na leitura, sem ouvir a televisão, o rádio ou o CD.
Lá pelas tantas, notou que
estava com uma certa dor de cabeça. Que seria? Tomou um café, que já estava
frio, ligou o computador para ler os e-mails. Nada de importante. A dor de
cabeça continuou e só então descobriu que já eram duas horas.
Fome, pensou. Estou com
fome. Jamais cuidava da própria fome, a mulher é que avisava lá da cozinha que
a comida estava na mesa. Sorriu. Ela fazia falta.
Pegou o arroz de saquinho.
Leu as instruções. Primeiro, esquentar um litro de água. Levou um choque.
Quanto é um litro de água? Dois copos? Três? Meia panela? Qual panela?
Mergulhou no armário e encontrou uma jarra salvadora: lá estava a marca de um
litro. Colocou água para ferver. Andou de um lado para outro enquanto a água fervia.
Foi dar uma olhada na televisão e, quando deu um pulo do sofá, a água estava
reduzida a meio litro. Colocou mais água.
Duas horas e meia, a água
já fervera, colocou o arroz. Leu as instruções: sal a gosto. O que seria sal a
gosto? Gostava de medidas precisas, odiava imprecisão. Lembrou que a avó da sua
nora punha nas receitas coisas do tipo: uma colher de sopa mal medida. O que
seria uma colher mal medida? Mulheres, resmungou. Além
disso, o sal levantava uma questão empírica: só era capaz de dizer se o sal
estava a gosto depois de pronta a comida. Antes, não. Encheu uma colher de sopa
com sal e ficou observando. Seria muito? Pouco? Muito. Retirou metade. Retirou
mais um pouco.
Agora, em fogo baixo,
esperar vinte minutos. Vinte minutos de angústia: não conseguia fazer mais
nada. Desligou a televisão, temendo que a água secasse de novo. Não se
distrair, os olhos grudados no relógio.
Pronto o arroz, descobriu
que não preparara a carne. Bom, era rápido. Era o que ela sempre dizia. Pegou a
frigideira, o óleo, a carne. Saiu-se bem com os bifes,
não queimaram.
Sentou-se para comer. O
diabo é que o arroz esfriara. E estava com pouco sal. E esquecera de colocar
sal nos bifes.
À noite, dormiu com a
janela da sala aberta, esqueceu de dar comida aos cachorros e os cogumelos
amanheceram na geladeira.
No dia seguinte acordou
com a sensação de que aquele seria um longo dia de provações, o que incluía
comer novamente arroz e bife. Talvez sem sal. Acendeu um cigarro mas não
experimentou o mesmo prazer em fumar pela casa. Faltavam dois dias para que ela
voltasse e ele sentiu sobre seus ombros o bater sinistro das asas de um amargo
pássaro da liberdade.
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