Afinal uma crônica com
utilidade pública
Roberto Gomes
Fui conferir a data de uma
exposição no site do MON e
acabei indo, de página em página, naquela vagabundagem que nos faz clicar aqui
e ali, espiar isto e aquilo – um dos maiores prazeres da rede. Dei uma olhada
no estudo original do Niemeyer para o Museu, vi fotos diversas, bisbilhotei
documentos, conferi exposições, eventos, já esquecido do que procurava. Lá
pelas tantas, esbarrei num link que me chamou a atenção: achados e perdidos.
Tomei um susto.
Logo num museu? Museu é
lugar de boa memória, o que imagino se estender aos seus freqüentadores. Bom,
devo estar enganado. Não há lugar mais indicado para se perder alguma coisa.
Será recuperada, com certeza, e, no caso do MON, com
a gentileza de uma página dedicada a relacionar o que lá se encontra à
disposição dos esquecidos. Um museu que se preze não deixa que nos esqueçamos
de nada.
Chama atenção a quantidade
de guarda-chuvas e sombrinhas perdidos. É conhecida a displicência com que
tratamos os guarda-chuvas, que merecem o desprezo, aliás. Meu pai, que
costumava ser sábio, dizia que guarda-chuvas (ele sempre os perdia) deveriam
ser de propriedade coletiva – único caso em que admitia o socialismo. Devemos
usá-los enquanto chove e largá-los em qualquer canto assim que o tempo melhora.
Será utilizado por alguma vítima do próximo aguaceiro.
Não pensa assim o site do MON, ao relacionar o que
lá está à espera dos distraídos: um guarda chuva na cor cinza, esquecido no
quiosque de entrada, um guarda-chuva infantil, cor de rosa, e outro verde, com
cabo de madeira, esquecido por uma visitante da qual o museu dá nome e
sobrenome: Tânia Costa. Como descobriram seu nome? Estaria inscrito no cabo de
madeira? Apego demasiado a um guarda-chuva. Foi quando encontrei um surpreendente
guarda-chuva vermelho. Quem poderia esquecer um guarda-chuva vermelho? Com esta
cor, fica gritando: olha eu aqui! É inesquecível. No
entanto, foi esquecido.
A lista dos abandonados
não cessa de surpreender. Por exemplo: uma faixa de quimono, cor laranja. Algum
judoca sonhador? Há faixa laranja no judô?
Surge agora uma pochete
rosa – a cor predominante nos objetos abandonados, aliás –, na qual os
cuidadosos funcionários encontraram o seguinte: uma toalha, um sabonete, uma
escova dental com capa e um creme dental. De alguém distraído, mas precavido. E
higiênico.
No setor de documentos, estão
à disposição uma carteira de identidade de Wagner
Nunes dos Santos e uma carteira estudantil de
Gisele Miguel. Na de acessórios, um anel prateado com detalhes em dourado e
pedras, além de um par de luvas na surpreendente cor vinho. O par de óculos de
sol Nickyferrari 3162, que eu jamais imaginaria que
existisse com tal identidade e número, já foi devolvido a seu feliz
proprietário. Mas ainda está lá um estojo fotográfico em couro preto, no qual,
com exceção da máquina propriamente dita, havia uma caneta e um cartão (Lexar 512MB) de memória, aquela que faltou a quem o perdeu.
E a quantidade
de guarda-chuvas cresce: surgem agora um preto e um azul, além de outro, preto,
em nome da Eloana, que já foi buscá-lo.
Mas nada é
mais surpreendente do que um objeto esquecido e classificado – os museus classificam,
com se sabe – sob o rótulo de Objetos Diversos. Lá está: um mosquetão com cabo
de aço preto. Um mosquetão?! Mas não seria o caso de incorporá-lo ao museu? E
quem será que anda por aí, nestas pacíficas ruas desta gentil cidade de
Curitiba, com um mosquetão em punho?
Segue a listagem: um canivete,
dois outros guarda-chuvas, uma tiara, uma pulseira com flores em várias cores,
uma echarpe preta (já devolvida), uma medalha em ouro,
uma carteira branca e rosa, uma mão de luva rosa. Vejam quanto mistério: como
se perde só uma mão de luva? A outra mão não ficaria gritando por companhia? E
por que se repetem a cor rosa e os guarda-chuvas? Jamais saberemos.
Por fim, um simbólico par
de óculos de grau encontrado após uma reunião governamental. Seu proprietário deve ter saído do MON
tropeçando. Vai ver, caiu naquele lago inventado pelo Niemeyer.
Enfim, além do prazer de
ser tão bem informado pelo site, achei que estava na
hora de escrever uma crônica com alguma utilidade pública. Quem sabe algum
leitor volte lá para recuperar seus objetos, supondo-se que se lembre do que
perdeu e de onde fica o museu.
e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br