A sinuca, os heróis e os deuses

 

Roberto Gomes

 

 

É como entrar num túnel do tempo. A rua senador Alencar Guimarães lembra uma Curitiba antiga. No alto da porta, um toldo insuspeito. É aqui. Subo os degraus estreitos, ladeados por paredes altas. A luz do dia fica lá fora. Vou assistir à decisão da 5ª Copa Sul de Sinuca. É o que anunciava o jornal.

Quando chego ao salão de jogo, me vejo noutro tempo. A sinuca pertence a um mundo antigo. Embora as janelas estejam abertas, a luz aqui é rala, centrada nas mesas. Ouço o estalar das bolas, alguém dá uma tacada que não vejo, mas aposto que explodiu na caçapa do fundo. Com gentileza antiga, alguns aplaudem e alguém diz, quebrando o silêncio:

- Boa, Aurélio!

O silêncio retorna. Arranjo um lugar para ficar. Encosto no balcão do bar: é o melhor ângulo possível. Noutra mesa, segundo um bêbado que me adota como ouvinte, estão disputando a outra semifinal. Nesta, jogam Aurélio, paranaense, contra Tuzinho, gaúcho. Aurélio é magro, cara triste, parece assustado. Ajeita as calças na cintura antes de cada jogada, funga, e tem, segundo o bêbado a meu lado, olhar de águia.

- Olha só o olhar de águia do cara! diz ele, cutucando minhas costelas e me envolvendo numa nuvem de cerveja.

A águia dorme na pontaria e dispara o taco. Tem técnica e estilo, mas erra. É do jogo.

Tuzinho é o popular rolha de poço. Baixote e gorducho. Ao contrário de Aurélio, que troca olhares com o público depois das tacadas, Tuzinho mantém a cara fechada. Poucas vezes deixa transparecer decepção ou alegria. No máximo, ri para si mesmo, o olhar neutro, ignorando a platéia. Aqui, todos os gestos são feitos de cálculo.

Nas três primeiras partidas, Aurélio mal pode jogar. Tuzinho acerta todas, sai de sinucas com tabelas ou efeitos mirabolantes, vai matando bola após bola, preparando as próximas com rigor geométrico. Aurélio reage só na quarta partida. É tarde. Perde a seguinte.

Agora, diz o bêbado, vai ser briga de cachorro grande. Lá na outra mesa, venceu Carioca que, apesar do apelido, é paranaense. Teremos o duelo Tuzinho versus Carioca.

Dois estilos. Tuzinho é frio, dá a impressão de que só se perturbaria se entrasse um boeing pela janela. Carioca tem um andar marinheiro, algo da estampa do jogador tradicional, quando a sinuca era transgressão à ordem pública. É alto e magro. Capaz de mil caretas, fala sozinho ou com quem está por perto. Olha para o teto quando o adversário desanda a fazer bolas no início da primeira partida.

Tuzinho mata uma vermelha, a sete, outra vermelha, a sete novamente, outra vermelha, a seis. Carioca olha para o teto. Fuma soltando baforadas para o alto. Faz de conta que não é com ele. Tuzinho erra a bola mais fácil, que preparara com arte refinada. Dá uma risadinha para si mesmo, que besteira que eu fiz, parece pensar.

É a vez de Carioca. Abre os braços e inicia um giro pelas bolas restantes. Não prepara as jogadas tão bem, mas é arrojado. Aponta o taco como se fosse demolir tudo o que está a sua frente. Quando em dúvida, precisa reprimir o impulso de atacar, coloca a mão na mesa, dispara uma careta, desarma a pose. Vai dar uma olhada na bola, volta, observa a cinco vista da caçapa, movimenta o taco como quem vai disparar uma pancada. Vencendo o desejo de largar o braço, joga com estudada delicadeza. Uma vermelha com taco em baixo, a cinco no meio, vai buscar a dois no fundo. Mata todas as bolas em seqüência até que resta apenas a sete, bola facílima, pedindo para cair. O público se olha dando a partida por encerrada. Mas, como sabemos, é nestas horas que se erra. Carioca erra. Anda de um lado para outro, gesticula, pede um maço de cigarros, reclama, olha para o taco pedindo uma explicação. Mas os deuses estavam a seu lado. Tuzinho também erra. Em seguida, diante de uma bola difícil, Carioca não erra. Um a zero.

E, neste ritmo, o jogo segue. O silêncio pode ser cortado em fatias. Só o estalar de tacos e bolas. Vapores de cerveja e fumaça de cigarro. Olhares de águia e despistes de felino. Tuzinho vence a segunda partida. Carioca devolve na terceira. Tuzinho vence a quarta. Dois a dois.

Decido ir embora. Estou cinco horas de pé, sem ninguém com quem dividir meus comentários, exceto o bêbado, que foi chatear noutra freguesia. Melhor assim. Me esperam em casa, penso. A decisão é em melhor de nove partidas, ainda faltam cinco. É tempo demais.

Desço a escada e retorno ao ano corrente e ao mundo tal como ele é. Para mim, deu empate. Pouco importa quem ganhe, decido. Mentira. No dia seguinte, não suporto este mundo sem heróis e sem grandes feitos no qual vivemos. Telefono para o bilhar do Noel. Ganhou o Carioca, me dizem.

Os deuses sabem o que fazem.

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