É a revolução, cego Tião

Roberto Gomes
Laurinho
Telefone, como é sabido, depois da tal lei seca resolveu vender o carro e
investir o montante apurado na formação de uma adega caseira. Bebe em casa,
ninguém o chateia. Quando sente falta de companhia, vai a pé ao boteco do cego
Tião. Antes, vinha de carro, sóbrio. Agora, já vem bêbado. Volta como Deus
permitir.
Pois ontem ele
chegou esbaforido, anunciando a revolução em terras tupiniquins.
Como
ninguém lhe deu ouvidos, subiu num engradado e lascou
um comício. Não vou reproduzir o texto do comício, faço um resumo. O caminho da
revolução brasileira estava estampado nas primeiras páginas dos jornais: já não
era permitido colocar algemas em suspeitos de crimes e os candidatos com ficha
suja poderiam participar das eleições. Ou seja, afirmou exultante, estava
garantido um direito fundamental: todos são inocentes até prova em contrário.
Houve a
chamada perplexidade geral no ambiente.
O cego Tião
passou um pano encardido no balcão e anunciou que lá vinha besteira. Carlão Borracheiro e Seu Boné deram gargalhadas. Só o
ilustre Dr. Plúmbeo Data Vênia, já bêbado, ficou
sério. E perguntou:
- Mas que
diabo de argumento é este, colega?
Laurinho
lascou:
- Simples. A
questão é que os membros do Judiciário não assistem noticiários policiais –
diante do espanto geral, explicou: Todos nós já vimos presos pé-de-chinelo
serem algemados por conta de algum descuido, uma apropriação indébita etc. Só
aqui na Vila já vimos o filho da dona Santinha ser algemado várias vezes. Mas
os meritíssimos nunca viram. Prova de que nunca viram, é que nunca reclamaram.
- Não
enrola, exigiu Data Vênia.
- Mas está
claríssimo, colega. Bastou prenderem uns tipos cheirosos e eles viram. E
perceberam o abuso de poder, a afronta, o pré-julgamento, o espetáculo das
algemas.
Ninguém
entendeu. Laurinho respirou fundo e continuou:
- Cito outro
exemplo revolucionário das últimas horas. O STF disse que políticos com ficha
suja podem se candidatar, a não ser quando condenados em última instância.
Quando serão condenados? Não se sabe. Pois o Miro Pelanca...
- Meu
sobrinho, resignou-se Carlão Borracheiro.
- ... esse
mesmo... não foi impedido de assumir emprego público na prefeitura por conta de
uns desvios praticados faz quatro anos? Foi.
- E daí,
Laurinho? – Data Vênia já não suportava o suspense.
- Tá ruim, hein?! Com esse troço de lei seca vocês bebem pouco e não
entendem mais nada. Pois precisamos tornar visível o abuso de poder, as
interpretações errôneas das leis.
Laurinho
desceu do engradado e foi em frente:
- A gente sempre
mirou no alvo errado. No dia em que conseguirmos mostrar gente engravatada,
cheirosa, mulheres com bolsas da Daslu nas filas da
previdência, os hospitais vão melhorar. Os meritíssimos, o falante ministro da
Justiça e mesmo esse rapaz que é presidente vão enxergar. É desumano algemar ou
deixar pessoas cheirosas nas filas dos consultórios. E os hospitais virarão um
paraíso. Enfermeiras servirão cafezinho e bolachas finas, haverá música
ambiente de qualidade.
Laurinho
parou na frente de Carlão Borracheiro e enumerou:
- No dia em
que os filhos cheirosos desta gente cheirosa forem colocados numa escola aqui
do bairro, as escolas se tornarão, por decreto, modelos internacionais. Quando
os bueiros dos bairros chiques correrem a céu aberto, todos teremos esgoto.
Quando os coliformes fecais fervilharem nos bebedouros dos senadores, a água
pura será universalizada. Nesse dia haverá Justiça, Saúde e Educação para
todos!
Carlão
Borracheiro, que não costuma ser sutil, deu um soco na mesa:
- Que mal
lhe pergunte, Laurinho, mas como vamos colocar esta gente nas filas de hospitais
públicos, seus filhos nas escolas de favela e salpicar a água deles com essa coisa
que você falou aí?
Laurinho perdeu
a paciência:
- Por
favor! Vocês querem que eu faça a teoria da revolução brasileira e ainda por
cima que resolva estas ninharias? Assim já é demais!
E voltou
para casa, onde a adega o esperava.
e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br