Cadê a esperança que estava aqui?

Roberto Gomes

 

O cronista e compositor Antonio Maria, uma doce e vigorosa figura, dizia ser um profissional da esperança. A expressão virou peça musical – Brasileiro, profissão esperança - com textos de Paulo Fontes e direção de Bibi Ferreira. Paulo Gracindo recitava textos de Dolores Duran e Antônio Maria. E Clara Nunes – uma das melhores vozes e os mais belos ombros da música popular brasileira – cantava.

Foi em 1974. E não parece que foi ontem. Parece que foi anteontem e em outro país. Basta lermos os títulos das canções que fazem parte do espetáculo, para ficarmos incrédulos. Como são doces essas canções, poéticas, sonhadoras – enfim, esperançosas.

Que profissão teria hoje o brasileiro? me pergunto eu.

A profissão, não sei, mas sei que há um bom tempo o brasileiro vive em estado de permanente perplexidade.

Leiam este texto: “A impunidade é a resposta que nesta terra se dá a tantos crimes contra a vida, contra a honra, contra o patrimônio. Mata-se no Rio de Janeiro, em um mês, duas vezes mais que em Londres, em um ano.” Foi escrito pelo jornalista David Nasser e publicado na revista O Cruzeiro no dia 30 de maio de 1959.

O curioso é que cada um de nós guarda seu caso especial de perplexidade. Carlos Heitor Cony, por exemplo, insiste sempre: “não sabemos até hoje onde estão os ossos de Dana de Teffé. O jornalismo dito investigativo investiga muito, geralmente o que já está ou foi investigado. Mesmo assim, dificilmente entendemos o que nos acontece. Sabemos quem matou o Lineu daquela novela que já foi esquecida. Mas não sabemos nem saberemos se o presidente sabia ou não sabia do ‘mensalão’.” Cony publicou este texto na Folha de S.Paulo no dia 9 de janeiro de 2006, e já repetiu o refrão dezenas de vezes a propósito deste assassinato ocorrido em 1961.

Assim vamos nós, brasileiros intranqüilos – ao contrário daquele americano tranqüilo do romance de Grahan Greene – colecionando mortes e assassinatos.

Faz algum tempo, recebi, do meu amigo Sérgio Faraco, um texto que ele publicou na Zero Hora, no Segundo Caderno, em 28 de fevereiro de 2007. Nele, o Sérgio revela sua antiga indignação frente a outro crime que chocou o país no distante ano de 1958. O rapto, estupro e assassinato de Aída Cury, jogada do 13º. andar de um edifício da Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro. Um dos assassinos é hoje um próspero empresário. Já o advogado Leopoldo Heitor, acusado do assassinato de Dana de Teffé, foi absolvido e exerceu sua profissão até 2001, quando faleceu.

David Nasser menciona uma gang que atuava no Rio daquela época. O divertimento – ainda não havia sido inventado o incêndio de mendigos – daqueles jovens era induzir garotas a dar voltas de lambreta. Levadas a um lugar ermo, eram drogadas, espancadas e violentadas. Algumas morriam. Outras, safavam-se para mergulhar num silêncio feito de pavor. Havia também aquelas que, após o álcool e as drogas, voltavam para novas sessões de estupro.

Deste distante ano de 2008, contemplamos com certo descaso as desventuras de décadas tão remotas. Mas, o que nos liga a elas? Ou, perguntando de outra forma: o que fizemos estes anos todos para dar uma chance a Aida Cury? Agora mesmo, um rapaz invade um apartamento em Santo André, munido de revólver, e, depois de dias de tortura, pavor e cativeiro, mata sua ex-namorada com um tiro na cabeça.

Numa destas gravações que circulam por aí, o rapaz – que manipula, e não é exceção, um vocabulário paupérrimo (mano, cara, tá sabendo) – diz, aos 22 anos, que não tem mais nada a fazer na vida, o mundo lá fora não interessa, quer apenas vingar-se.

Sendo a violência servida como prato principal em todos os noticiários e filmes e séries de televisão, reflexo do que se passa nas ruas, vielas e becos do país, ele se imagina um anjo vingador. Foi abandonado e vai punir a culpada, Eloá Cristina, de quinze anos, ex-namorada, que aliás ele diz não desejar mais.

O que ele deseja, então? O avesso do desejo, a vingança. Contra este desvario, nada podem as leis ou a polícia.

Bom, de tantas voltas que dei, chego ao parágrafo final achando que não falei do assunto que inicia esta crônica. Ou falei? Desculpem-me os leitores, mas tratava-se da esperança. A doce, poética e sonhadora esperança. Cadê a esperança?

 

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