A cavalgada das valquírias

Roberto Gomes

 

Era uma época sem essas maquinetas infernais – infernais e fascinantes – que hoje ocupam meninos e meninas e adultos: televisão, computadores, jogos eletrônicos, internet, redes sociais. Éramos um bando de moleques a inventar suas próprias distrações, soltos nas ruas, no meio do redemoinho.

Pela manhã, o tempo era gasto em ir ao colégio. Tratando-se de uma Blumenau que não existe mais, íamos caminhando. Durante o recreio, como ainda não existia bulling, gastávamos nosso tempo em saudáveis pugilatos, provocações e desafios entre quadrilhas, xingamentos, tirações de sarro, concursos de apelidos. Quem fosse mais fraco deveria descobrir um modo de se tornar mais forte. O difícil era descobrir no que, mas sempre havia uma modalidade: correr, brigar, estudar, tirar as melhores notas, ser o pior da sala, namorar mais meninas, jogar melhor bilboquê ou clica ou futebol.

Voltar para casa era divertido. Voltávamos leves, sem obrigações, em bandos anárquicos. Teríamos que enfrentar os deveres “de casa”, mas nisso nem pensávamos. Seriam feitos num resto de tempo, ao anoitecer.

O almoço devia ser rápido. Tínhamos o que fazer, não podíamos perder tempo. Logo estávamos reunidos na rua – pois naquele tempo todos éramos meninos de rua. Ser menino de rua não era a maldição dos dias atuais. Era o estado natural das coisas, as ruas eram nossas, nelas estavam todas as coisas interessantes da vida.

De calção e camiseta, pés no chão, estávamos prontos para um jogo de futebol, uma excursão num matagal próximo ou um mergulho no afluente do rio Itajaí-Açú que corria por ali. Não tínhamos medo do rio, ao contrário de nossos pais.

Mas tínhamos medo de algumas coisas. De um alemão neurótico que furava nossas bolas quando caíam no seu germânico quintal muito bem organizado. E medo de nossos pais, que nos vigiavam querendo saber o que fazíamos sumindo a tarde inteira em companhia de meninas, às vezes pelo meio dos matos. Não fazíamos muita coisa, é claro, mas a preocupação dos adultos nos deixava agitados: o que seria tão bom assim para que eles vivessem preocupados conosco? Ainda não sabíamos direito, mas adivinhávamos.

No meio das brincadeiras, surgiam as mães chamando para fazer a lição ou para ir ao armazém.

Fazer a lição era chato, mas ir ao armazém podia ser divertido. No armazém havia a filha do proprietário. Ele, um alemão solene e simpático, que gostava de puxar conversa. Ela, uma menina de olhos safados, que me pedia ajuda para encher o pacote de feijão que eu fora buscar. Sumíamos nos corredores do armazém. O pai ficava lá no balcão a conversar com um freguês e nós ficávamos namorando até ouvir o chamado:

- Os dois aí! Caíram dentro do saco de feijão?!

Ao final do dia, exaustos, merecíamos um repouso digno de heróis. Sentávamos no meio-fio e ficávamos esperando. Um contava uma anedota, outro pregava uma mentira. Esperávamos. Logo ouvíamos o alarido. Parecia um bando de tirivas se aproximando. Escutávamos uma mistura de vozes femininas e um chiar arrastado de correntes de bicicleta. Lá vinham elas.

Eram as operárias de uma fábrica próxima saindo do trabalho. Um bando delas. Não paravam de conversar. Riam muito. Eram muito bonitas. Aliás, eram belíssimas. Uma coleção soberba de valquírias. Branquinhas, clarinhas, cabelos loiros, olhos azuis, corpos saudáveis. Todas lindas, mesmo as mais feias, pois nossa imaginação transformava cada uma delas numa fräulein deslumbrante.

Quando estavam a uns dez metros, começava o espetáculo. A partir do meio-fio, víamos os vestidos subirem esvoaçantes ao ritmo das pedaladas, descobrindo pernas e coxas elásticas, macias ao olhar. Com sorte, víamos algumas calcinhas, mas eram raras. Sempre brancas. Lunares.

Assim passavam as operárias nas bicicletas, felizes com o término do turno de trabalho. Nós ficávamos imaginando coisas num deslumbramento inocente em que nos perguntávamos o que poderíamos, um dia, fazer com tudo aquilo.

Elas logo se perdiam rua abaixo. O rebolar nos selins era sempre uma lírica despedida.

Íamos dormir com a cabeça cheia de sonhos.