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Um caso de bovarysmo

 

Wilson Martins

Publicado em 28/06/2008 - Gazeta do Povo
e em 15/07/2008 no Jornal do Brasil

 

Pequena Bovary de província (como o seu protótipo), Júlia da Costa (1844-1911) foi um caso exemplar de bovarysmo segundo o tipo psicológico identificado por Jules de Gaultier há mais de um século para designar os que tendem a aspirar por uma vida diferente da sua, idealizada e compensatória. A literatura conheceu-os antes dos psiquiatras, criando a família dramática a que ela pertence, ao lado de Emma Bovary (que deu nome à teoria), a Luísa queirosiana e tantas outras, inspirando obras-primas da arte romanesca às que agora podemos acrescentar Roberto Gomes, mestre do romance histórico, com Júlia (Belo Horizonte: Leitura, 2008).

Trata-se da autora de Flores Dispersas (1867), poetisa menor hoje esquecida (tanto quanto o seu livro), mas sobrevivente em raras referências bibliográficas que a apresentam como paranaense que primeiro publicou um livro. Paranaense? Sim, por ter nascido em Paranaguá, mas a verdade é que, vivendo desde a infância na cidade catarinense de São Francisco, ali fez seus estudos, integrando-se, de perto ou de longe, às suas atividades literárias e jornalísticas. Nessas condições, incorporá-la à literatura paranaense é claramente um ato de apropriação indébita. Aludindo a Flaubert e Eça de Queiroz não pretendo estabelecer paralelos gratuitos, mas, ao contrário, acentuar desde logo que o romance de Roberto Gomes pertence ao mesmo plano de qualidade narrativa e perfeição estética.

Aqueles são clássicos da literatura universal porque o tempo os consagrou, mas ainda não o eram em 1857 e 1878 quando apareceram, beneficiando-se aos nossos olhos pela tradição crítica e respectivas idéias feitas desde então acumuladas. Roberto Gomes se inscreve na família do realismo flaubertiano – aquela na qual o romancista deve dar a impressão de jamais haver existido – não à do naturalismo zolaesco repleto de subentendidos doutrinários. Este último parta das explicações fisiológicas, declaradas ou implícitas, e aquele, de singularidades psicológicas. Há muito sexo em Luísa e na senhora Bovary, mas quase nenhum em Júlia, participante constrangida e indiferente aos deveres da vida conjugal, até aparecerem os dois homens aos quais se ligou por uma paixão desvairada. No romance de Roberto Gomes o sexo comparece por metáfora, se assim me posso exprimir, nas relações do marido com a escrava, contrapostas às fantasias românticas de Júlia, com trocas de bilhetinhos nas janelas e encontros furtivos pela cidade.

É o retrocesso irônico da realidade “realista” (proposta e aceita pelo casamento de razão) em face das idealizações do romantismo adolescente: “Só Benjamin fizera com que seu coração desse um salto forte em seu peito, a respiração suspensa, as pernas oscilando. E não fora apenas isto. Desde o primeiro momento ficara encantada com o rosto pálido de Benjamin, seus olhos ao mesmo tempo inquietos e doces, os lábios grossos, o queixo firme, a voz grave com que cantava valsas e modinhas. E as mãos, grandes mãos de violonista, dedos magros e finos, de uma elegância elástica, expressando tensão e graça, movendo-se em sua direção num cumprimento galanteador [...]”.

Qualquer psicanalista amador reconheceria as metáforas da atração física sob esses pensamentos idealizadores e “inocentes”, nomeadamente a nostalgia da dança, mimodrama do ato sexual, pois, na valsa, pela primeira vez, o homem enlaçava a mulher: “Mas nunca haviam dançado, nem mesmo haviam passeado pela praça central de São Francisco, que era onde as moças inauguravam seus namoros oficialmente”. Nesse quadro, o futuro marido surge como intruso e usurpador, assim sendo visto pelos biógrafos convencionais que idealizam Júlia da Costa e as suas aventuras amorosas. Passear pela praça “não era permitido a eles. A situação absurda na qual a colocara o gesto do Comendador [propondo-lhe casamento] a transformara numa mulher proibida a qualquer outro homem. Este era o poder que se abatera sobre ela. Já não poderia encontrar-se com Benjamin em público, não poderia dançar [sic] com ele nos bailes, seus encontros deveriam ser secretos, escondidos dos olhares da cidade. [...] Benjamin surgira em sua vida e logo se tornara proibido”.

O idealizado Benjamin revelou-se, afinal, decepcionantemente realista, abandonando-a sem maiores explicações e casando-se com outra. O segundo sedutor foi seu amante, saltando muros na calada da noite para encontrá-la em seu próprio quarto conjugal. Júlia dá-lhe de presente a preciosa espada histórica do Comendador, gesto cujo significado psicanalítico é mais do que evidente. Fulminada pela fuga do amante, Júlia se tranca no quarto até morrer, refugiando-se na loucura, suicídio simbólico correspondente ao suicídio real de Emma Bovary. O final é uma página flaubertiana quando, depois da morte de Júlia, um amigo vem fechar as portas do palacete. Foi tudo uma fatalidade, poderia ele repetir com Charles Bovary – a fatalidade que costuma inspirar os grandes romances.

 

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