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Todas as casas
 
 

 

TODAS AS CASAS*
(1.º capítulo)

Roberto Gomes


Todas as casas. Com tudo que há nelas, dentro e fora. Espaço aberto e óbvio, fechado e improvável, banal e raro, origem, abrigo, refúgio, encontro de memórias, prisão e liberdade. Geografia afetiva cujo alcance não se submete à arquitetura de que são feitas — livre do tempo e do espaço, estão disponíveis tanto hoje quanto ontem, sempre que um perfume, palavra ou gesto as recupera, embora lá, onde supostamente residem e onde estiveram um dia, reste uma pálida imagem do que foram por debaixo de sucessivas reformas, inquilinos bárbaros, pinturas de gosto duvidoso, uma porta a mais, um puxado nos fundos, um muro agressivo repleto de lanças assassinas, grades de prisão onde antes havia liberdade e sonho. Casas.

Talvez um mapa, traçado externo a todo conteúdo, mas também móveis velhos e puídos, porta de armário com um vidro trincado, um guarda roupa dentro do qual se acha um livro de Sartre, a poltrona com um pé quebrado, substituído por um toco encontrado no quintal — de onde veio? — e que cordialmente se ajusta à nova função, corredores, escadas antigas, cheiro de verniz no corrimão, conversas vindas da cozinha, ruídos no sótão, outros corredores por onde passam pessoas, sombras, por onde passa o tempo, por onde se mergulha noutras vidas e se ouve, ao fundo, uma música de igreja — para sempre a casa guardaria, em meio a seus silêncios, um andamento de canto gregoriano. Quarto, penteadeira, guarda-roupa, banqueta com assento revestido em veludo vermelho, camas silenciosas que nunca denunciam as alegrias e misérias que viveram e a soberba caixinha de metal guardando antigas moedas: Delettrez, Paris. O segredo dos cobertores, o mistério nunca revelado: o que se passou ali? E aqui, nesta sala, quem sentou nestas cadeiras, quem puxou a cortina com curiosidade e bisbilhotou a rua? O que se passava na rua? Quem sofria debruçada nesta janela?

Um telhado com goteiras ou as águas do rio, em fúria, invadindo o quintal, estufando as portas após dias de enchente e deixando atrás de si o mofo, a lama, o fedor, o vinco marrom na parede: metro e meio de água dentro de casa, mostrados com certo orgulho, sobrevivemos à tragédia, maior só em 1911, quando o rio subiu 16 metros acima do nível. Mas quem fez este risco, quem anotou esta data? E as reuniões de fim de ano, onde, dizem, esteve meu avô, naquele campo no qual, dizem, jogou meu tio, que era um craque, fosse hoje, estaria na seleção. Que sombras são estas que não vemos e que, no entanto, caminham pelo corredor, plantam-se no sótão, espiam por detrás dos pilares do porão, invadem a cozinha e remexem panelas ou fazem com que a escada de madeira ranja a noite inteira, quando todos estão deitados, tentando dormir agarrados a seus travesseiros e parcos desejos?

A decisão sábia seria apagar a luz e deixar que outras vidas se ocupassem da casa, vasculhassem as escadas, percorressem o jardim, debruçando-se na janela como fazia todos os dias, segundo contam, minha bisavó, na espera sem fim do homem a quem amava. Ou meu avô, severo, dizem, sério, dizem, as mãos às costas, caminhando pensativo em torno da casa, este avô que nunca vi senão através das lembranças dos outros, mas a quem fui levado quando tinha três meses de idade — o que terá dito ou pensado este homem com fama de rabugento e severo daquele neto que sua filha solteira fora fazer com um homem casado? Ninguém me conta. Para sempre meu avô e minha avó, que tinha traços firmes e olhar obstinado, serão apenas um retrato oval — colorido a lápis — na parede da casa de meus tios. Por que não me esperaram, por que se foram tão cedo? Que estranha pressa. Fiquei chorando na sala vazia: onde estariam?

Dormir. Mas a casa não se aquieta. A janela geme tangida pelo vento de uma noite antiga, de no mínimo quarenta anos atrás, dizem, em outra cidade, a porta que range sem se mover — súbito, uma telha despenca.

— Virgem Santa! se benze tia Celina.

Tudo vive e se move nas casas, nas vidas, dentro e fora delas.

Vizinhos, amigos, parentes, namoradas: esse povo que circula em torno das casas. Festas, brigas, comentários maldosos, inveja, um ombro amigo, o sexo debaixo das escadas, nos porões e sótãos, nos quartos e corredores, uma casa inteira para dançarmos, meu amor, nesta noite que ficará para sempre nesta sala, nesta varanda, neste quarto, eu não sabia que teu corpo brilhava no escuro. Ninguém suspeita que os amantes ali permanecem, amando-se para sempre, enquanto o caminhão de mudança balança na curva ameaçando derramar em plena rua toda a história da família como quem joga por terra águas servidas.

Todas as casas. Fora delas uma multidão invade as ruas, se atarefa, dá tiros que quase matam um menino de um ano e pouco, brigam em alemão e xingam em português, eu, tímido, andando de um lado para outro com livros debaixo do braço, com livros na cabeça, com idéias escondidas em cadernetas, com poemas nos olhos. Caminhar pelas ruas, sempre, ir e vir, não encontrar ninguém, parar num canto, e agora?, retomar a caminhada, encontrar um gato vadio, um bêbado disposto a acompanhar uma serenata, ouvir as vozes que vêem lá de dentro do bar onde se bebe cerveja.

Onde está tudo isso? Para onde irá tudo isso? Ninguém saberá que um dia meu tio tomou um porre e cometeu loucuras. Nem que meu pai me contou, dentro de um velho Chevrolet, a triste história de um amor fracassado que ainda lhe doía no peito, vinte anos depois lhe doía no coração. Eu queria apenas ser feliz, compreende? Eu compreendia — e foi a partir daquele dia que comecei a compreender. Mas como saberão que roubei uma cadeira de um hotel, às três horas da madrugada, e fui sentar nela no cruzamento mais movimentado da cidade, por onde, àquela hora, não passavam nem mesmo os fantasmas mais afoitos?

Ler, o refúgio das páginas, outras casas onde passamos a maior parte da vida. Estar num canto, em companhia apenas de uma lâmpada e de um livro, a casa deserta, na verdade em meio a uma fantástica batalha entre um homem e um canhão que rompeu as amarras nos porões de um navio em luta com um mar desesperado em 1793: o canhão range, geme, animal furioso no texto de Vitor Hugo. Para sempre lembrar deste trecho de livro, esquecendo todo o resto. Estas páginas eram tudo. Quantas coisas fizemos dentro e fora das casas que não mereceram qualquer registro, em nós ou fora de nós, que foram meros acidentes ou gestos gratuitos, que morreram logo após realizados? Eu subindo as escadas, jogando-me na poltrona depois de um pileque medonho, ligando o rádio, esperando que a pêra esverdeada aos poucos adquirisse vida e me pusesse, ali de minha casa, em contato com o mundo inteiro — locutores do Rio, de Moscou, de Londres, quantas noites me salvaram da morte, do medo, do salto pela janela que um dia ameacei.

Muitas casas. Nunca entendi para que tantas e tamanha agonia em mudar de um lado para outro se tudo continuava na mesma. Não seria mais fácil pegar um ônibus, dar uma volta em outro bairro, ir ao cinema, sentar numa mesa de bar, beber um refrigerante e depois voltar para a mesma casa de sempre? O que se buscava com tamanho desespero?

Sempre me espantei quando alguém apontava casualmente uma casa e dizia: ali passei a infância. Quinze anos! Lembranças que entram por aquele portão — o mesmo, veja só! —, atravessam o jardim com ciprestes e cerca viva, percorrem porões e sótãos — as casas tinham estes espaços indispensáveis a uma saudável existência humana, lugares de privilégio onde, creio, foram pensadas histórias que seriam escritas muitos anos depois, às vezes em sonho. Falam de pessoas, tios, tias, vizinhos, amigos, que estão todos ali, naquele mesmo espaço, disponíveis como na infância. Contam casos, anedotas familiares, pequenas piadas que só fazem sentido e graça para quem viveu naquela casa, naquele tempo, que no entanto está ali, do outro lado da rua, enquanto nós, habitantes do presente, passamos num automóvel veloz sem saber por qual razão corremos tanto.

Ocorre que não existiu uma casa. Muitas vezes, buscando inutilmente organizar o que sentia, cobri páginas com anotações e datas e nomes de ruas e de vizinhos na tentativa de lembrar de todas e, não raro, — mesmo agora, quando escrevo —, esqueço desta ou daquela. Por razões que ignoro, vivíamos mudando de casa com uma freqüência que sempre me pareceu assustadora.

Assim, qual a casa? Onde estão as lembranças definitivas? Impossível saber. Foram muitas e se dispersaram no tempo e nesta geografia da memória. Espalham-se por vários bairros, quintais, quadras, jardins, vizinhanças, cidades, amigos, parentes, surpresas, medos, episódios para sempre rebeldes.

Há um apartamento na rua XV de Novembro, mas há outro exatamente em frente, do outro lado da rua — minhas lembranças os separam, no entanto, com um intervalo de alguns anos, talvez cinco ou seis. O que se passou aqui e ali? Uma casa na rua Paraíba e outra, na mesma rua, mais acima. E outra, ainda, no outro lado da rua, onde moramos com meu padrinho, durante uma época de crise, quando o aluguel se tornou insuportável ou quando a enchente tomou conta da casa em que morávamos.

A casa da rua XV, onde eu ficava na janela observando o movimento da rua com olhos de criança, sem saber que a morte passaria a vinte centímetros de minha cabeça. A outra, na mesma rua, cuja janela me propunha um abismo. Uma, no início do bairro da Velha, onde ouvi pela primeira vez um violão notável, talvez reflexo de um violão que ouvira anos antes, em outra casa, à beira de um rio. Outra, na mesma rua, mas em outro bairro, onde eu conhecia todas as letras de rock e tocava uma guitarra imaginária; o futebol à beira do rio, a literatura atravessando a noite e o dia. Enquanto a casa que fica no beco Rio do Sul é povoada de fantasias, nem sempre minhas: a vizinhança vivia agitada com a imaginária descoberta de pedras preciosas num morro próximo e o único sujeito que não delirava com a riqueza fácil era Pedro Coelho, que não sabia ler e era tido como burro no grau mais extremo.

Onde estaria, então, a infância, dispersa desta forma por tantos lugares? Pensada assim, nem sei se terá sido uma só infância. Eu mesmo terei sido um só nesta multidão de lugares e gentes? Como me achar entre tantos destroços?

* Primeiro capítulo do romance Todas as casas, Criar edições, 2004

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