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Crônica
 
 

SPALA*

Roberto Gomes


Era um canário belga e se chamava Spala. Quem lhe deu este nome foi meu filho, João Marcelo, depois de ouvirmos, estupefatos, seus primeiros solos. Era um canto brilhante, belamente exagerado, com variações inesperadas. Um som metálico e claro, estridente, muito alto. Quase não se conseguia acreditar que aquelas invenções musicais fossem de autoria daquela pequena criatura.
Um dia apareceu na cozinha de casa. Encolhido num canto, atrás de um cabo de vassoura e de um balde. Parecia faminto e apavorado. Foi fácil pegá-lo. Comprei gaiola, alpiste, catei uma folha de alface e passamos, durante uma semana, a cuidar dele. Comida no bico, dormir abrigado por um pedaço de pano. Ao final de sete dias, cantou pela primeira vez. Virou Spala.
E trouxe novidades para nossas vidas, além do canto sempre reinventado. Acabei lendo vários livros sobre canários, cheguei a palpitar a respeito de cruzamentos possíveis e não recomendados, a distinguir canários lipocrômicos e melânicos, a indicar seus fatores, e a saber que foram os espanhóis os descobridores dos canários, que encontraram nas Ilhas Canárias, de onde retiraram o nome, em 1478. Desde então o canário silvestre (Serinus canarius) - que é chamado de verde por misturar pigmentos amarelos, negros e pardos - se espalhou pelo mundo em inúmeras variações.
Com o tempo, achei que o Spala andava muito só e resolvi arrumar-lhe uma companheira. Compramos uma canária de muita personalidade. O acasalamento foi alguns meses depois, sob aplausos meus e de meu filho. Nasceram onze canários, em duas ninhadas. Um ano e meio após, estávamos, entre filhos e netos, com vinte e oito canários, o que transformou a área de serviço numa balbúrdia coberta por cascas de alpiste e restos de alface.
Tornou-se difícil cuidar de todo aquele povo. A compensação era a cantoria interminável e o fato de que Spala cantava cada vez melhor. Virara afinal um soberbo patriarca. Diante de seus filhos e netos, cantava. Eles o acompanhavam, mas nenhum o alcançou em excelência.
Passei a distribuir canários a amigos e conhecidos. Hoje devem existir pela cidade algumas dezenas de descendentes do Spala e de sua canária, que, ao final de um ano de doações, ficaram quase sozinhos, acompanhados apenas por uma filha solteirona e algo rabugenta, chamada Ferrugem, e por uma canária branca que ofereci ao Spala e que ele teve o juízo de rejeitar. Além de tudo, era fiel.
E deu-se a tragédia. A sua canária morreu. Não houve arnica, floral ou antibiótico que desse jeito. Encorujou e morreu, como fazem os passarinhos. O pior é que dias depois Spala parou de cantar, encorujou também e, apesar de tudo que fizemos, resolveu morrer. Segundo a gélida opinião do veterinário, da mesma doença que vitimou sua companheira. Não acredito. Acho que o Spala morreu de saudade. Foram cinco ou seis anos juntos, dezenas de filhos, não suportou. Para quem transformar o ar das manhãs numa clarinada composta por Vivaldi?
Hoje ele está aqui em cima da minha mesa. O taxidermista, a quem contei as muitas peripécias e os notáveis feitos do Spala, acabou por fixá-lo numa pose adequada. Parece ameaçar um movimento de esquiva, atento a algo que não vejo, prestes a soltar seu trompete de Dizzy Gillespie, a quem, aliás, adorava ouvir. Os dois faziam duetos notáveis. Um no CD, outro no poleiro.
Olho para o Spala, imóvel para sempre naquele poleiro e lamento a ausência do canto, que só existe em minha memória e numa fita cassete que não consigo mais encontrar. Mas já não sofro. Foi um grande cantor e um poeta sensível, pois morreu de amor, como todos talvez devêssemos morrer. Tem afinal a imortalidade possível nesse mundo que não costuma tratar muito bem dos poetas.

* Extraído de Alma de bicho, Criar edições, 2000.

 

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