Inicial Obras Fortuna Critica Textos Currículo Contato Criar Edições
 
Publicações sobre o Autor
 
 

VAI SER DIFÍCIL ACHAR OUTRO


Sírio Possenti (*)

Muitos ainda não descobriram, mas a melhor maneira de passar o tempo sozinho ainda é ler. No último mês, nas folgas entre as tarefas que assumi ou que me atribuem, dou um jeito de ler e reler Exercício de solidão (Record, 1998), um livro que contém dez contos de Roberto Gomes, que mora em Curitiba, que nasceu em Blumenau e que já escreveu uns tantos livros, um de filosofia, vários romances, mais outro de contos e alguns infantis, bons para todas as idades.
Desde Alegres memórias de um cadáver, passando por Terceiro tempo de jogo, chegando a Os dias do demônio — que contém a passagem mais erótica (eu disse erótica) da literatura brasileira depois da machadiana de Missa do Galo – é que Roberto Gomes domina como raros o ofício do escritor (se ele vê isso, me mata, ora oficio do escritor, oficio de escritor é o..., ele vai me dizer). É que seus romances são verdadeiras histórias e são escritos com um domínio total da técnica e das táticas — quero dizer: ele é bom na armação da história e em sua execução ponto a ponto. Se você gosta de histórias, vai gostar da história, e se gostar de textos bem feitos, vai encontrar sempre e só textos bem feitos, pedaço a pedaço.
Alegres memórias... é muito divertido e ao mesmo tempo é de doer, porque a universidade sai do livro como deveria sair de uma auto-avaliação, devendo demais (nem é necessário dizer que o livro é muito melhor do que qualquer relatório). Os jornalistas esportivos não conhecem Terceiro tempo.. — o que é que eles conhecem, por falar nisso? — mas e a melhor homenagem que Garrincha já recebeu. Muitos acharam e poucos disseram que Os dias do demônio é um livro extraordinário e nenhum letrado de relevo leu o livro, até porque a distribuição dele parece ter sido feita pelo Ministério da Fazenda. Fico imaginando o sucesso que Roberto Gomes faria se fosse paraplégico ou bem gordo, ou mesmo se apenas morasse em 5. Paulo, ou até se Curitiba não fosse um exercício de solidão. Que é o que ele acha, e que é talvez um dos ingredientes de sua escrita (de sua escritura, diria um acadêmico).
Como ia dizendo, a melhor maneira de passar o tempo ainda é ler — eu acho. E posso garantir que uma das melhores é passar o tempo lendo Exercícios de solidão. São histórias que parecem contadas, às vezes, porque de aparente simplicidade (tente escrever uma conversa fiada de um minuto entre duas pessoas que pareça uma conversa fiada de um minuto entre duas pessoas). Mas essa escrita aparentemente simples também é marcada por numerosas alusões, quando é o caso (como nas aulas e conversas do professor de filosofia da PUC que seduz sua curitibana e mal amada aluna de Mestrado).
As personagens são prostitutas, artistas, jogadores de futebol, meninas sensuais, professores, velhos, malucos: gente. E que pensam e falam como gente. Veja só um quadro de Momentos de glória, um conto composto de 25 pequenas cenas, história de uma artista que se arrebenta.
"— Meu Deus, como ela mudou!
— Mudou no quê? pergunta Carmela.
— Que pessoa ruim, malvada!
Carmela ergue as mãos para o céu:
— Isso é uma novela, Bia.
— E precisava fazer?"
As pessoas que têm bom gosto e estão achando falta do que as satisfaça devem ler Roberto Gomes. Vai ser difícil achar outro.

(*) Sírio Possenti é professor do IEL/Unicamp e autor entre outros, de Porque (não) ensinar gramática e Os humores da língua.

Revista Literária Blau, Porto Alegre, RS, janeiro de 1999, p. 24.

voltar