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UMA
POÉTICA DO ISOLAMENTO
Miguel
Sanches Neto(*)
Com um livro marcado pelo discurso erótico, Roberto Gomes consolida
o seu lugar na literatura brasileira.
Depois de
toda uma obra escrita na solidão sem margens de uma Curitiba dominada por dois
ou três nomes na literatura (nem sempre os melhores), obra que foi publicada
por pequenas editoras, conquistando um público considerável, apesar do total
descaso da imprensa, Roberto Gomes chega enfim a uma grande casa editorial.
Sem a pressa típica dos que envelheceram na infância da arte, ele não aparece
no cenário nacional como uma promessa, mas como um criador maduro, que
suportou o exílio provinciano, os 40 dias bíblicos no deserto, com a altivez
de quem sabe que está no caminho correto. Em sua produção não existe o
deslumbre por modismos, nem o grave defeito (tipicamente paulista) de escrever
para agradar a crítica, nem a postura comercial de provocar escândalos - a sua
é sempre uma literatura serena, que não chama a atenção sobre si, que prefere
o silêncio do tugúrio à espalhafatosa badalação das efemérides midiáticas. É
desta longa estadia na sombra, onde se gestam as grandes obras, que Roberto
Gomes, criador autêntico num período de meros simulacros, surge para ocupar,
definitivamente, o seu espaço na literatura brasileira contemporânea.
É, portanto, simbólico que o seu primeiro título por uma grande editora
comercial se chame justamente Exercício de Solidão (Record, 1998). O livro é
uma definição da província, como fica sugerido pelo desabafo de um personagem:
"Curitiba é um exercício de solidão!". São exatamente os seres solitários,
identificados a um espaço castrador, que dão unidade de atmosfera aos dez
contos que compõem o livro. Neles, vai implícita a própria experiência de
Roberto Gomes, escritor quase subterrâneo que, avesso à autopromoção, pôde
habitar os forros de uma cidade que tenta controlar a produção literária
local. Por ter optado ficar à margem, Roberto conseguiu fazer uma radiografia
desta maneira solitária de habitar uma Curitiba impiedosa com os elementos
estranhos.
Sentindo-se sempre como um estrangeiro, devido à sua condição de catarina, o
autor teve o necessário distanciamento para fazer esta leitura herética, mas
extremamente feliz, da metrópole provinciana. É com este olhar de fora que ele
capta com precisão a invisibilidade (um verdadeiro assassinato) que Curitiba
impõe aos que não compactuam dos valores oficiais. Assim, é emblemática a
trajetória de Astolfo, um ingênuo e autêntico capiau catarina que se entrega
em apaixonada imolação a uma putinha curitibana, sendo devorado por um sistema
de poder que, embora do submundo, pode ser lido como representação da
macroestrutura social. Indivíduo bom e espontâneo, Astolfo não sabe lidar com
uma realidade totalmente pervertida (não sexual mas socialmente), cabendo-lhe
a morte.
Embora o título do livro e alguns contos remetam à solitude curitibana, em
que o próprio autor desenvolveu a sua maneira de ser, o livro ultrapassa esta
discussão, tratando com grande amplitude da experiência solitária. A partir
desta forma clandestina de viver em Curitiba, Roberto produziu um dezena de
contos que funcionam como uma poética do isolamento.
Em "Tende piedade de mim, senhor", a vida religiosa de um seminarista, que
se sabe um ser erótico, produz a situação psicológica do afastamento.
Contrariando os hábitos castos da comunidade em que vive, ele se sente um
prisioneiro do desejo. Tudo que lhe resta, durante uma penitência, é o diálogo
com Deus, para quem narra suas incontroláveis aventuras libidinosas. Deus se
torna assim um confidente sentimental do jovem que se sente vocacionado para o
amor, num conto em que o autor conseguiu atingir um grau elevado de
significação através da comunhão perfeita entre ritmo e tema. Pelo fato de o
personagem viver uma condição ambígua, a história é narrada numa grande
rapidez, representando o ritmo de quem reza para se ver livre da penitência
(situação vivida externamente pelo personagem) e o ritmo de quem está
permanentemente excitado, tal como, no fundo, se dá com este sensual
seminarista. Já em "Delírios de amor de uma aluna da PUC", a personagem, que
não consegue encontrar-se na vida familiar, busca uma libertação através de um
curso de pós-graduação em São Paulo. Inicia-se uma vida dupla, em que Curitiba
figura como o local da realidade, da negação de sua interioridade, e São
Paulo, o espaço do saber e do prazer. Da admiração intelectual por seu
orientador nasce uma paixão que a leva a romper com os vínculos familiares e
com a maneira circunspeta da existência curitibana.
Em São Paulo era diferente. Desde que se matriculara na pós-graduação, se
sentia outra mulher [...]. Comprou roupas novas, camisetas, saias rodadas e
blusões [...].
Quando voltou da terceira viagem, reservou uma surpresa para o marido:
apareceu em casa com uma saia de chita, os cabelos encaracolados nas pontas,
uma imensa bolsa a tiracolo. (p. 26)
Esta revolução era uma maneira de buscar a autenticidade existencial
proposta por seu orientador. Como filósofo acadêmico, no entanto, ele se
revela, depois de um caso com a aluna, apenas um teórico da libertação, não
passando de um falso ídolo, tão hipócrita como as pessoas por ele criticadas.
Tudo que resta a esta mulher recém-liberada é voltar para a solidão de
Curitiba e suportá-la definitivamente.
Já o personagem de "Por amor de Lucinha", um casto noctívago, tem que
suportar, além da cidade, os ciúmes de sua mulher. Só consegue vencer esta
situação de total insulamento, inclusive matrimonial, a partir do instante que
arruma uma amásia. Ele tem que trair a esposa para conquistar a sua confiança
e o seu companheirismo.
Companheirismo que desconhece o órfão de "A velha", um verdadeiro ermitão. O
mistério de uma menina morta no século passado, mas presente na figura de uma
mendiga que mora no cemitério, dá alento à vida vazia deste personagem fadado,
desde a infância, ao isolamento. A esta figura fantasmagórica ele se
identifica, encontrando uma possibilidade de reconhecimento de si próprio. É
também o desejo de preencher o vazio de sua vida que leva Carlinhos a buscar
num bordel a substituta de sua grande paixão juvenil, a deslumbrante Glória,
que de atriz pornô se torna um dos mitos da televisão brasileira ("Momentos de
Glória"). Em "Ritinha Veludo" é o amor fácil que dá plenitude à vida besta de
um menino em formação. Mas o autor não narra histórias apenas do ponto de
vista de quem procura meretrizes como uma tentativa de encontro com o outro.
Em "Amor de loque" é a prostituta que, depois de se apaixonar por um
interiorano que acaba assassinado por um gigolô de plantão, sofre a perda da
pessoa com a qual ela mais tinha se identificado. No final, resta-lhe somente
a solidão definitiva do comércio do corpo.
Sofrendo uma profunda ausência dos elementos familiares, o engenheiro de "À
maneira de Spinoza" cultiva com todo cuidado alguns amigos. Em um deles, o
mais íntimo, ele acha o irmão que não teve entre os filhos de seu pai. Só que
este amigo tem uma vida dupla e começa a aparecer ora com uma personalidade
ora com outra, atormentando a segurança psicológica do engenheiro. Mais
pungente e menos filosófico é o drama do ex-jogador de futebol, agora guardião
noturno, deformado por uma doença, que vive silenciosamente no passado, à
sombra das recordações de uma época em que ele conheceu a glória do esporte.
Se em todos estes contos o que aparece é o sofrimento de indivíduos, a
maioria moradores de uma cidade grande, em "Aos cuidados de seu Jordão", o
isolamento tem um sentido positivo. Recusando os valores da metrópole, um
misterioso personagem transforma um vilarejo em um local paradisíaco, onde se
vive uma liberdade sexual sem traumas e sem imposições. A autenticidade
existencial que o professor de filosofia não consegue pôr em prática é aqui
seguida à risca pelo rústico Jordão.
Uma outra maneira de agrupar estes contos é estudando a questão da
duplicidade. Grande parte das narrativas trata de seres cindidos, que vivem
duas condições. O seminarista é um religioso/erótico, nascendo daí o seu
sofrimento. A estudante da PUC é uma mulher de alma livre que se sente presa a
um casamento e a uma cidade. O marido de Lucinha, tido como conquistador, só
consegue ser aceito como marido fiel ao trair a esposa. A atriz Glória,
tachada por todos de prostituta, acaba sendo, através da fantasia de um de
seus ex-namorados, encontrada em uma meretriz. A menina da vida que se
apaixona pelo caipira catarinense se vê, através deste amor impossível,
transformado de Putinha em irmã de caridade, designações que a colocam entre
duas identidades conflitantes. André, amigo do narrador de "À maneira de
Spinoza", tem uma personalidade cambiante que desestabiliza o narrador carente
de afetividade. Já o ex-jogador sofre com o fato de ter sido o legendário
Danilo sem poder assumi-lo numa velhice podre.
Assim, o exercício de solidão é definido pela impossibilidade, externa,
imposta pelo meio, ou interna, de ordem psicológica, de exercer uma identidade
autêntica. Isso só pode ocorrer na pequena e libertária Cachoeira das Águas
Verdes, cidade que funciona como negação da falsa moralidade que impera na
capital.
Com exceção dos dois últimos contos e de "A velha", todos os demais são
histórias com fundo erótico, o que mostra ser esta uma forte tendência
temática no autor. Não se trata, no entanto, de uma simples tara. A idéia,
inclusive, de perversão não existe nestes contos. É que, para Roberto, o sexo
é o caminho para a autenticidade, tanto existencial (é através dele que Jordão
transforma a sua Cachoeira) quanto estilística. Estas histórias do prazer são
escritas em uma linguagem espontaneamente sensual, que se impõe ao fruídor,
fazendo da leitura uma atividade prazerosa. Estilisticamente, Roberto Gomes se
impõe como um escritor marcado pelo prazer do texto. Esta unidade de forma e
de conteúdo dá-lhe um traço diferenciador numa tradição literária que tem
descambado para a escrita maçante e intelectualóide. A partir deste Exercício
de Solidão, não é possível continuar ignorando um dos mais representativos
escritores que o Sul já produziu.
Gazeta
do Povo, 4ª página - Caderno G - Curitiba, segunda-feira, 19 de
outubro de1998
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