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RESISTÊNCIA INQUIETA


Antonio Manoel dos Santos Silva(*)


Autor e sua obra

Roberto Gomes começou a receber certa atenção da crítica a partir do Concurso UNIBANCO de Literatura, em 1978. Foi um dos dez melhores entre mais de dez mil concorrentes, o que, nesta terra de contistas e de concursos literários, pode significar o risco da glória momentânea, a competição no anonimato dentro da difícil política literária, a revelação de uma promessa, e até mesmo a confirmação de um talento quase desconhecido. Um ano antes, o jovem escritor já aparecera na antologia Assim escrevem os paranaenses; e, nos meios universitários, já havia ganho renome com um ensaio sobre a prática filosófica no Brasil. Isso tudo quer dizer que, se o referido Concurso não podia ainda confirmar um talento, não significava no caso, a revelação de uma promessa. Felizmente também, o autor iria demonstrar nos anos seguintes, a percepção exata dos limites e alcance das premiações, em que muitos gênios futuros se debatem e se sufocam. Ao mesmo tempo, Roberto Gomes, com raro senso profissional e trabalhando com denodo, se faria notar cada vez mais no palco onde se desenrola o drama social conhecido como vida literária.
No ensaio sobre filosofia, qualificado modesta (e espertamente) como uma boa molecagem brasileira, Roberto Gomes se revelava um autor inquieto, original, com uma linha de pensamento e de compreensão do Brasil um tanto quanto estranha às tradições acadêmicas. Provocativa, a Crítica da Razão Tupiniquim, hoje na nona edição, fazia conhecer ao público, ao lado do ensaísta arguto, irônico e de forte veia satirizante, um excelente escritor. Nos domínios da ficção, este escritor, ainda não muito notado pelos leitores, ganharia fama explosiva em 1979 com o romance Alegres memórias de um cadáver, premiado em São Paulo com o "José Geraldo Vieira".
Dessa data para cá, novos livros foram surgindo, junto com reedições dos primeiros: Sabrina de trotoar e de tacape, em 1981, livro de contos; Antes que o teto desabe, romance denso e primoroso sobre a juventude por volta de 1964 e sua memória atual, também publicado em 1981; O menino que descobriu o Sol, livro de literatura infantil, selecionado entre Os melhores contos do 1º Concurso Nacional de Contos Infantis, hoje na 7ª edição e participante da Ciranda de Livros. De 1983, é o livro de crônicas O demolidor de miragens. De 1985, dois outros: o de literatura infantil, Carolina do nariz vermelho, e o romance que, sendo antes de tudo literatura, pode ser entendido como literatura juvenil: Terceiro tempo de jogo.
Enquanto isso, o autor vem vivendo uma intensa vida literária: dá conferências, organiza encontros, faz parte de debates culturais, se faz presente em bienais e feiras de livros e ainda arruma tempo para defender seus direitos autorais. Se não fosse muito, ajudou a fundar a Cooeditora e criou a Criar Edições, cada vez mais firme no difícil mercado editorial brasileiro, no qual ocupa um lugar de destaque, mesmo levando em conta a competição com as editoras do eixo Rio-São Paulo. Em resumo, uma presença ativa, e necessária.

Temática

Quando nos deparamos com a lista de obras de Roberto Gomes ficamos com a impressão de um autor dispersivo: ensaios, contos, crônicas, romances, literatura infantil. Uma análise mais atenta nos faz ver algumas constâncias temáticas, mais ou menos enfatizadas em cada texto mas perceptíveis o suficiente para possibilitar-nos uma visão do conjunto. Por exemplo, o tema da educação, ou, se quiser, o da formação do ser humano visando o seu aperfeiçoamento. Está presente na crítica à razão ornamental que percorre toda Critica da Razão Tupiniquim, bem como nas reflexões do cadáver e na sátira a alguns tipos de personagens atuantes no Alegres memórias de um cadáver, o mesmo ocorrendo na ridicularização de alguns intelectuais e professores em contos de Sabrina de trotoar e de tacape. O tema se exprime também na oposição que o autor costuma fazer entre o aprendizado assistemático, enraizado nas experiências concretas, e o aprendizado sistemático, geralmente abstrato e desvinculado do real; nessas bases consegue construir complexas histórias que confrontam gerações, grupos, instituições e indivíduos. Lembro aqui as relações do avô e do menino diante do comportamento familiar de pai e mãe em O menino que descobriu o Sol. Lembro o aprendizado político figurado em Alegres memórias de um cadáver e Antes que o teto desabe. Vale destacar ainda o encaminhamento valorizador da curiosidade infantil, sem moralizações repressoras, existente em Carolina do nariz vermelho. Ao contrário do que muitos possam imaginar, as antíteses incorporam as contradições, ou seja, Roberto Gomes leva as suas ficções de modo a não enrijecer os elementos opostos. Desse modo, os personagens, os grupos e até as instituições, mesmo quando ridicularizados, deixam ver seu lado menos nítido ou mais oculto. Assim, o duro às vezes se enternece, o herói deixa amostra suas falhas e suas misérias morais; ali, o mau aparenta recuperar-se e, noutra parte, o bom mostra sua facezinha diabólica.
Outro tema do gosto de Roberto Gomes é o poder, não só o seu exercício nas diversas instâncias sociais (família, escola, cidade, nação), mas também os estratagemas para se chegar até ele, a ele resistir ou dele ficar marginalizado. Geralmente se liga a este tema, e não era para menos, o da violência, pois esta geralmente desmascara os poderosos ou denuncia o sistema que a permite. Quase todos os contos de Sabrina deixam transparecer esses motivos, que também estão nos romances, inclusive em Terceiro tempo de jogo. Qualquer que seja o caso, o poder, exercido ou não com violência descarada ou disfarçada, torna-se objeto da ironia e da sátira do autor. Com visão humorada, o poder real será objeto para riso em muitas crônicas de O demolidor de miragens.
Conflitos de gerações formam outro dos assuntos preferidos do autor. As vezes tais conflitos se somam a outros problemas, como acontece nos três romances, principalmente em Alegres memórias de um cadáver e em certos contos, ás vezes se internalizam na memória de uma geração inteira, como se dá em Antes que o teto desabe, chegando a insinuar-se com relativa força no conto infantil O menino que descobriu o Sol. A gente vê, porém, que o humano permeabiliza as relações conflitantes tirando delas a rigidez que muito pensamento ornado de humanismo lhes impôs. Assim, num momento vemos um velho piscar o olho cúmplice para uma criança, um pai orgulhar-se caladamente com o filho, um nobre professor sair na digna defesa dos inexperientes alunos, um diretor armar um jogo de parceria malandra e generosa com seus escolares.
Todos esses assuntos nos levam para dois tratamentos ficcionais de Roberto Gomes. Um deles, principalmente nos romances, consiste em privilegiar a história de grupos e não de indivíduos, embora consiga o autor com esse procedimento chamar a atenção para as individualidades; outro consiste em desenvolver o tema da amizade, suas exigências, seus paradoxos e suas contradições. Acho mesmo que poucos autores contemporâneos conseguem captar como Roberto Gomes as relações afetivas que, limitando-se com o amor, envolvem compromissos inter-subjetivos a todo momento subordinados a riscos relativos à salvaguarda da liberdade individual, do livre arbítrio e das decisões que solicitam o empenho com o projeto alheio e até mesmo o empenho com os projetos grupais.
Evidentemente, não são esses todos os temas de Roberto Gomes, em cuja obra encontramos ainda o motivo do prestígio social (e na linha de Machado de Assis o sacrifício da autenticidade pessoal para salvar o lado público), o da sexualidade, o da vida burocrática, o do nacionalismo inconseqüente, o do conflito entre humanismo e tecnologia, etc.

A linguagem

Roberto Gomes escreve bem, e muito bem. Constitui um dos raros autores novos que, além dessa qualidade, consegue prender o leitor. Concorre para isso certamente a escolha de assuntos de interesse constante para os brasileiros: a escola, o futebol, a participação política, a busca e o exercício do poder, a formação e a conservação das amizades. Creio, porém, estar na sua linguagem o principal fator de prazer causado pela leitura de seus textos.
Antes de tudo, chama a atenção a perspectiva humorada com que trata suas personagens e as diferentes situações dramáticas. Tal humor freqüentemente deriva para a ironia e, desta, para a sátira, ambas dirigidas contra tudo que cheira conservadorismo, prepotência e hipocrisia.
Neste sentido se nota uma profunda coerência entre o ensaísta da Crítica da Razão Tupiniquim e o ficcionista dos vários romances, contos, crônicas e textos infanto-juvenis. Como ensina a boa literatura, o humor, a ironia e a sátira nascem muito dos contrastes de comportamentos e de situações; o incompetente no poder, em antítese com os competentes marginalizados, o fazer desmentindo o dizer, o moralista imoral, o tecnocrata instrumentalizado. Acentue-se ainda a tradição alimentadora dessa postura artística:
Cervantes, Mark Twain, Charles Chaplin e, entre os brasileiros, Machado de Assis, Lima Barreto, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Millôr Fernandes e Dalton Trevisan.
Outra característica notável em boa parte da obra de Roberto Gomes, está na presença de alguns recursos próprios da narrativa policial: a existência de um enigma, a figura do investigador (ingênuo, marginal ou oficial), a vontade do desmascaramento, o sentimento de aventura diante do imprevisível, a sonegação de informações em todo caso claras depois dos reconhecimentos e dos desvendamentos, a suspensão do discurso revelador. Até em Carolina do nariz vermelho pode-se encontrar umas pontas de narrativa de enigma e de investigação. No livro de crônicas, Roberto Gomes chega a insinuar uma espécie de série policial ou antipolicial, bem humorada e irônica.
Longe da retórica altissonante, Roberto Gomes consegue aliar elaboradas e modernas formas de construção narrativa com uma eficiente coloquial idade. Esta, essencial nas crônicas, não significa descuido de estilo, nem desleixo gramatical, mas apuro de forma, isto é, o melhor modo pelo qual os conteúdos se dão a conhecer. Seus textos se podem ler, portanto, sem dificuldade, pois suas palavras se encontram no repertório cotidiano e comum. Ao mesmo tempo, tal coloquialidade convive com narrações que alternam passado e presente, ou, que superpõem espaço e tempo ou que mobilizam diversas vozes narradoras. Sim simultaneamente, frases lacônicas, cortes narrativos à semelhança do desenrolar de histórias em quadrinhos e de filmes, dinamizam a linguagem, cuja fluência e força exemplares, a crítica tem destacado com a devida ênfase.
Finalmente, Roberto Gomes tem-se mostrado um mestre do diálogo e dos detalhamentos significativos. Não só do difícil diálogo direto, mas dos diálogos indiretos, dos monólogos e dos fluxos-de-consciência. Leiam-se as conversações dos estudantes em Alegres memórias de um cadáver, os bate-papos de bar em Antes que o teto desabe, os diálogos entre os quase meninos de Terceiro tempo de jogo. Leia-se atentamente Despojos de Guerra (em Sabrina de trotoar e de tacape). Então nos certificaremos desse domínio sobre os processos de reenunciação das falas dos outros. Isto nos indica um autor com personalidade criadora dramática, a saber, um autor com a sabedoria de ser os outros que ele cria.
E quanto aos detalhamentos significativos, constituem um dos tantos sinais pelos quais Roberto Gomes se enquadra na melhor corrente realista. Sem se preocupar em descrever detalhes, tem o senso dos detalhes significativos, aqueles que permitem o vôo alegórico, a projeção simbólica, a caracterização indireta das personagens, um aprofundamento critico, a percepção inusual de acontecimentos importantes apesar de comuns. Exemplos: as vidraças que refletem um fim de tarde (Loucuras de um velho professor), a xepa de cigarro no canto da boca (Uma brincadeira de armar), as rachaduras de teto e parede e o gatinho esquelético (Alegres memórias de um cadáver) e os dribles desconcertantes de Garrincha, quer dizer, Tiziu, em Terceiro tempo de jogo.
Para concluir esta apresentação, escolho, de Critica da Razão Tupiniquim, estas palavras do próprio Roberto Gomes, as quais, devidamente adaptadas para a literatura, definem um projeto pessoal, ao mesmo tempo realista e crítico, aberto ao novo e ao dinâmico, porém fundamente enraizado na tradição de nosso melhor modernismo literário:

"Cabe a nós descobrir o que nos importa.
Descoberto isso, teremos a palavra adequada.
Adequada ao que é nosso.
Dita à nossa maneira, com nossa preocupação específica.
"

(*) Professor e Ex-Reitor da UNESP. Doutor em Literatura Brasileira. pela USP. Defendeu tese sobre Mário de Andrade e Mário Faustino. O ensaio aqui reproduzido foi escrito em 1987 e publicado como Introdução ao volume Roberto Gomes, nº 1 da Série Paranaenses, da Editora da UFPR, que organizou.)

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