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Júlia
 
 

 

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O barco era jogado pelas ondas, aos trancos, e fazia muito frio. No horizonte, as nuvens reduziam a cidade de Paranaguá a uma mancha cinza. Júlia perguntou à mãe se ia chover. A mãe a abraçou, aproximando-a de seu peito, e disse que não era chuva, eram só nuvens, logo passaria, ficasse calma. A filha não gostava de chuva, ela sabia. Júlia ergueu os olhos estrábicos, retorcidos pelo medo, e observou mais uma vez o continente desaparecer ao longe. O prédio da administração do porto – a maior construção que já vira na vida – era uma sombra diluída pela neblina. O resto da cidade mal se adivinhava. Alguns traços vagos ondulavam pouco acima da linha da água – os morros e as casas e os telhados. Júlia sentiu seu corpo tremer, invadido por um susto que lembrou a queda que sentia à noite, antes de adormecer. Estava certa, porém, de que aquilo que via não era apenas uma impressão criada pela distância, algo que o mar e a neblina desenhavam. Era a própria cidade na qual nascera, pensou, que sumia mar adentro. Como as pessoas estariam se socorrendo daquela ameaça? Aquele cenário se apagaria de verdade – e não apenas dentro de seus olhos: o mundo estava se desfazendo. Paranaguá era tragada pelo mar, despencando no abismo que se abria lá onde podia ver apenas o horizonte. Um grande redemoinho sugava agora o porto, os navios e barcos, o imenso prédio da administração, os morros, as casas e telhados. Junto desapareciam a praça do colégio, a igreja e a casa onde Júlia morara. Tudo sumiria – e não apenas dentro de seus olhos. Mais uns minutos, continuando o barco naquela velocidade, e aquele mundo – que era todo o mundo que conhecia – acabaria para sempre. Júlia sentiu um suor gelado percorrer suas costas e a respiração faltar.

- Que foi, minha filha?

Júlia se colocara de pé, bruscamente, ao impacto de alguma força desconhecida que agia sobre seu corpo. O balanço do barco fez com que perdesse o equilíbrio.

- Júlia!

A voz parecia distante, gritada do fundo de um corredor imenso, um corredor de hospital, e Júlia sentiu medo.

O casal que estava sentado no banco ao lado se aproximou. O rosto da mulher era gordo, e o homem, muito pálido, tinha bigodes enormes e brancos. Júlia deixou-se abraçar pela mãe e disse que estava com medo.

- Medo do que, minha filha?

- Não sei.

- É o balanço do barco, calma, disse o homem que sorria com seus bigodes brancos. A menina não precisa se assustar.

A mulher de rosto gordo afagou sua cabeça e disse que ia buscar um remédio infalível para enjôo.

- Não demoro, disse ela, disparando pelo convés.

Júlia fechou os olhos. Talvez, se não olhasse para o horizonte, a cidade não caísse no abismo. Foi quando tudo começou a girar.

- Filha! Filha! – a mãe chorava.

Um grande tumulto se formou em torno de Júlia. Ela acompanhava sem reagir àquela sucessão de rostos, de bocas, de mãos que buscavam seu rosto e sentiu o medo aumentar, enquanto seu coração latejava enlouquecido. O mundo iria sumir nas profundezas e, quando chegassem em mar aberto, eles também, naquele vapor, seriam tragados para sempre.

Tudo escureceu. Ela sentia frio e sabia que seu corpo estava tomado pela neblina. Mantinha-se de pé, mas não caminhava. Era levada como folha de papel ao vento, pensou, esvoaçando de um lado para outro, uma folha de papel coberta de rabiscos incompreensíveis. Quando tornou a abrir os olhos, a mulher de rosto gordo segurava um vidrinho e dizia, eufórica:

- Viu só? É infalível!

Todos sorriram. Júlia também sorriu. O frio cedeu e ela se aninhou nos braços da mãe, que agradeceu a ajuda do casal.

- Precisando, é só chamar, se ofereceu a mulher de rosto gordo.

Ficaram novamente sozinhas – e seria assim, pensou Júlia, que continuariam pelo resto de suas vidas: sozinhas, só as duas, num mundo feito de água e abismos. Lá em Paranaguá, a cidade que desaparecia no mar, ficaria para sempre o corpo de seu pai. E só agora ela começava a acreditar que ele estava realmente morto, agora que as águas o levariam para o centro da terra. Até aquele momento, a morte lhe parecera um afastamento temporário, ligado ao pavor que sentira quando a mãe lhe dissera que o pai fora internado no hospital. Nada de grave, dois dias e estaria em casa, não se preocupasse. Ela foi vê-lo no dia seguinte, mas não chegou a entrar no quarto. Ficou no colo da mãe, no corredor, e só lhe permitiram fazer acenos e mandar um beijo. O pai estava deitado numa cama estreita e longa, vestia um pijama azul que parecia imenso e tinha no rosto uma claridade de lua. Seu rosto é uma lua pálida, pensou ela. Não devia se assustar, repetia a mãe, era apenas uma questão de dias, talvez uma semana.

Ele nunca mais voltou para casa. E Júlia nunca mais pôde vê-lo no hospital. Não era permitido. Não entendia por qual razão não era permitido. E não o viu nem mesmo depois de morto. O caixão estava fechado – lacrado, aprendeu naquele dia – e ela teve que se contentar com aquela imagem de um pai muito magro por debaixo do lençol, o rosto de lua pálida, a mão direita oscilando incerta em sua direção, devolvendo o beijo que mandara.

Agora - e ela fechou novamente os olhos – ele iria sumir, engolido pelas águas. Nunca mais o veria. Nunca mais veria aquela cidade onde nascera. Respirou fundo e se virou na direção do mar aberto. As ondas jogavam o paquete de um lado para outro, a neblina o engolia com uma determinação cega, e tudo nele rangia profundamente como se um corpo gemesse, um homem chorasse, uma mulher estivesse parindo, um grande animal sofresse a agonia da morte. Júlia abraçou a mãe com mais força e perguntou:

- A senhora nunca vai me deixar, vai?

Os olhos de dona Maria se encheram de lágrimas:

- Nunca, minha criança. Nunca.

Júlia aninhou-se no colo da mãe e não olhou mais na direção do continente. Estava certa de que seu olhar poderia desencadear uma catástrofe.

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