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CICLO DAS CASAS


Miguel Sanches Neto



 

Na confluência de ficção e confissão, manejando uma linguagem de grande plasticidade e com uma luminosidade crepuscular, extremamente adequada à matéria da memória, Roberto Gomes escreveu, em Todas as casas (Criar Edições, 2004), o romance da orfandade extrema. Embora alimentado por recordações e velhas fotografias, o livro se distancia da narrativa propriamente autobiográfica, erguendo-se como grande literatura e obra ficcional de primeira grandeza. Tudo que é tratado como ficção se torna ficção nas mãos de escritores em que a deformação é sempre mais forte do que o registro naturalista. A diferença entre autobiografia e romance não está no material usado - os elementos da própria vida do narrador -, mas no exercício de um olhar sistematizador, interessado mais nos possíveis símbolos de experiências biográficas do que na recuperação do passado. O escritor cria estruturas enquanto o autor de autobiografias segue as estruturas narrativas convencionais. O escritor se escreve no relato. O autor de biografias é escrito pelo relato. Um é sujeito, domina o turbilhão de fatos, afastando-se daqueles irrelevantes. O outro é objeto, deixa que as águas do tempo perdido tomem todos os espaços da escrita.

É possível, no entanto, ler a trajetória de Roberto Gomes neste Todas as casas, desde que se tenha bem definido que estamos diante de um romance, obra que quer narrar uma história e não contar uma vida.

Como o próprio título anuncia, o centro do texto é a casa. E aí já encontramos o escritor no domínio de suas ferramentas. Ele não vai falar de si de forma direta, mas por meio das imagens das casas em que viveu, ou em que lembra ter vivido. A casa perdida no tempo mas intacta no ar é novamente habitada pela escrita, que a devolve ao mundo real, agora transformada em símbolo. Conhecer as formas da casa é, por extensão, reconhecer um eu que passou por ela, ora como hóspede secreto, ora como habitante consciente, mas sempre como inquilino, provando da natureza provisória de tudo.

O primeiro capítulo, intitulado "As casas", é um ensaio poético sobre a força cosmogonia da casa, umbigo do mundo. Elas são muitas, misturam-se na memória do narrador, numa vizinhança perigosa, que lhes rouba a individualidade. São as casas, sem um endereço estável, uma imagem confiável. Por serem múltiplas, assustam o homem que olha para o passado em busca da infância que, para a maioria das pessoas, está fixada no tempo e no espaço: "Sempre me espantei quando alguém apontava casualmente uma casa e dizia: ali passei a infância. Quinze anos!" (p.12). Para ele, as casas eram geografias imprecisas, o que o coloca em estado de instabilidade. Se não tinha um centro, o que lhe restava de seu passado? Esta pergunta é o ponto de partida da busca relatada no livro. O narrador termina o capítulo assustado com os fragmentos da memória: "Onde estaria, então, a infância, dispersa desta forma por tantos lugares? Pensada assim, nem sei se terá sido uma só infância. Eu mesmo terei sido um só nesta multidão de lugares e gentes? Como me achar entre tantos destroços?" (p.14). Na verdade, ninguém pode se achar, deve é se inventar. É isto que vai fazer Roberto Gomes neste livro memorável.

Se não há como delimitar as fronteiras destas casas, embaralhadas na território movediço da lembrança, ele escolhe um número carregado de significação. Serão doze as casas da infância, doze lugares revisitados pelo homem em busca de um menino solitário, marcado pela mudança dos endereços mas também pela natureza acolhedora da casa, substituto do útero materno, que lhe dá um afeto não encontrado na mãe, atormentada pelo rancor da separação. Ao eleger doze casas, ele está dando um sentido simbólico a elas. Doze é o número perfeito, o ciclo fechado, é o tempo cíclico do ano.

A casa, no início, simboliza a família, pois congrega os pais e o menino, fazendo-se ponto de convergência. Aos poucos, ela vai se tornando a própria família, quando os membros tomam rumos divergentes. Em todas as casas, sentimos a força que agrega lutando contra a força desagregadora da vida. É sobre esta antítese de reunir e dispersar que se constrói o romance.

Com o afastamento do pai e seus periódicos desaparecimentos e ressurgimentos, o menino tímido se apega à casa, entendendo a importância dela. Eles se mudam, mas sempre há uma esperança de que nestas alterações de endereços pai e mãe novamente se encontrem. É quase um jogo, a partir de certa altura, esta movimentação. No começo, ela revela a inquietação paterna, sempre vivendo de inúmeros empregos ("foi jornalista, funcionário público, delegado, vendedor de terrenos na praia, criador de curiós..." , p. 40). Depois, quando estão sozinhos, ela passa a funcionar como possibilidade de encontro.

O que mais atormentava o menino era a intangibilidade dos lugares habitados pelo pai depois da separação. Visto como um "Ulisses municipal", ele vivia em um outro espaço, num não-lugar, cheio de mistério, levando o filho a sofrer o desconhecimento da casa e do pai: "Ente fantástico, meu pai morava em casas que para mim eram também pura ficção: só sabia delas pelos relatos dos outros" (p.97). A sua infância, assim, também se passava nestes espaços sem espessura, o que deve ter levado o menino a exercitar sua imaginação, para alcançar uma intimidade imaginária com esta figura fugitiva.

O momento mais dramático do livro é quando o filho solitário pára perto do rio e fica olhando o outro lado, onde mora o pai incógnito, sentindo de forma física, pelo passar das águas, a separação entre os dois mundos. O momento é de risco, o suicídio aparece como forma de unir os dois espaços, mas ele acaba salvo por um homem.
Sem confiar nas casas e sem habitar o mundo paterno, o menino cresce insubmisso, preparando-se para a difícil vocação de escritor. Mas ele vai descobrir uma outra forma de casa: o corpo da mulher amada. Primeiro, apenas reconhece esta nova morada, em jogos infantis, depois se apaixona por uma mulher mais velha, habitando seu corpo com a segurança que a adolescência lhe dá, até ser também despejado dela. Ao passar pelo corpo amado, sem poder criar raízes nele, completa o ciclo das casas, fazendo-se adulto.

Não existe o encontro, não existe a segurança. Ele está então preparado para o mundo, rompe com sua cidade, Blumenau, e deixa para trás os tantos e inviáveis endereços. O livro termina com o capítulo "A casa", em que o narrador encontra sua morada definitiva: "Eu morava no mundo e estava só. O deserto estava agora dentro e fora de mim, conteúdo e continente, prisão e angústia" (p.157). A casa que nos resta, no final da contas, é sempre o vazio, e o narrador descobre que sua infância preparou-o para o mundo. Perdendo todas as casas, ele pôde enfim herdar a casa, esta feita de linguagem, matéria menos frágil do que tudo o mais.

Gazeta do Povo - Caderno G - Curitiba - Segunda-feira, 21 de junho de 2004.

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